Depois de dormir durante doze horas seguidas, ainda me sentia mal. Não nasci para viver só. Apanhei a minha carteira e saí, decidido a beber até esquecer que existia. Entrei no primeiro bar que encontrei, cheio e barulhento. Fiquei. Pedi a bebida mais forte. E quanto mais engolia aquele líquido amargo, mais pensava na morte. Nunca tive coragem, porém. Covarde e idiota. Sempre acreditando, esperando por algo que jamais viria. Do outro lado da rua, um bar vazio. Sequer um bêbado solitário como eu. O homem magro, que ficava no balcão, ia até a porta a cada minuto, estalava os dedos, olhava para os lados e voltava, resignado. Fiquei com pena. Sim, além de idiota, me comovo fácil. Paguei a conta, atravessei a rua, me sentei numa cadeira velha e ensebada e fiz o meu pedido ao magrelo. A bebida estava péssima. Eu me sentia traído. Tive compaixão daquela espelunca e estava sendo lesado. Deveria ter adivinhado, a julgar pelo abandono do local. Rosnei alguma coisa inaudível, fiz cara de poucos amigos, quis ir embora. Fiquei. Tomei outras doses e, uma hora depois, saí, resolvido a caminhar pelas ruas e becos da cidade que conhecia tão bem. Quando as pernas reclamaram, parei para descansar num banco, de onde podia contemplar a lua. Ao menos, era uma companhia. Contei a ela todas as minhas dores. Ela me ouvia, com a natural indiferença dos astros. Até que percebi um arrastar de passos. Não estava mais sozinho. Dois grandes vultos − que pareciam estar armados − andavam rapidamente em minha direção. Senti falta da solidão do bar. Pela primeira vez, temi pelo que poderia acontecer. Pensei na minha vida de merda. Fiquei.
17 de fevereiro de 2013
Bar
Depois de dormir durante doze horas seguidas, ainda me sentia mal. Não nasci para viver só. Apanhei a minha carteira e saí, decidido a beber até esquecer que existia. Entrei no primeiro bar que encontrei, cheio e barulhento. Fiquei. Pedi a bebida mais forte. E quanto mais engolia aquele líquido amargo, mais pensava na morte. Nunca tive coragem, porém. Covarde e idiota. Sempre acreditando, esperando por algo que jamais viria. Do outro lado da rua, um bar vazio. Sequer um bêbado solitário como eu. O homem magro, que ficava no balcão, ia até a porta a cada minuto, estalava os dedos, olhava para os lados e voltava, resignado. Fiquei com pena. Sim, além de idiota, me comovo fácil. Paguei a conta, atravessei a rua, me sentei numa cadeira velha e ensebada e fiz o meu pedido ao magrelo. A bebida estava péssima. Eu me sentia traído. Tive compaixão daquela espelunca e estava sendo lesado. Deveria ter adivinhado, a julgar pelo abandono do local. Rosnei alguma coisa inaudível, fiz cara de poucos amigos, quis ir embora. Fiquei. Tomei outras doses e, uma hora depois, saí, resolvido a caminhar pelas ruas e becos da cidade que conhecia tão bem. Quando as pernas reclamaram, parei para descansar num banco, de onde podia contemplar a lua. Ao menos, era uma companhia. Contei a ela todas as minhas dores. Ela me ouvia, com a natural indiferença dos astros. Até que percebi um arrastar de passos. Não estava mais sozinho. Dois grandes vultos − que pareciam estar armados − andavam rapidamente em minha direção. Senti falta da solidão do bar. Pela primeira vez, temi pelo que poderia acontecer. Pensei na minha vida de merda. Fiquei.
7 de fevereiro de 2013
O peso do tempo
Talvez seja um pouco tarde para escrever sobre
o assunto, mas apenas ontem, ao ler uma matéria sobre a morte de Walmor Chagas,
fiquei inquieta. O ator, aos 82 anos, sofria de uma doença ocular que o impedia
de ler (uma das coisas que mais gostava), ficando, para isso, dependente da
filha. Começou, então, a achar que estava incomodando. "Num dia é o
pára-choque, no outro é a rebimboca da parafuseta", brincava Walmor
Chagas, com relação aos vários exames que se submetia nos últimos dias.
Diabético, foi diagnosticado também com gastrite e esofagite. Ao conversar com
o amigo Antônio Cardoso, o ator confessou que “queria morrer antes de usar
fraldão”. Camus escreveu que “o suicídio é a grande
questão filosófica de nosso tempo”. Sim, e é tão difícil, pelo menos para mim,
compreender o que leva uma pessoa a tirar a própria vida, enquanto eu, vivo com
medo da morte, por mais que a existência, na maioria das vezes, se mostre
absurda e sem sentido. Quem sabe, com a chegada da velhice, eu possa entender
um pouco melhor tudo isso. Parece claro
que Walmor Chagas cometeu suicídio por imaginar ser um estorvo na vida da
filha, da família, dos amigos. O psicanalista Freud, numa
entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926,
disse algo que me tocou profundamente: “Talvez os deuses sejam gentis conosco,
tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte
nos parece menos intolerável do que o fardo que carregamos”. Ele devia ter razão. Só nos resta mesmo torcer para
que, no fim da nossa trajetória, possamos aguentar firmes o peso do tempo.
18 de janeiro de 2013
Sobre tédio e ratos famintos
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| Dois ratos, de Vincent Van Gogh |
Acabo de receber esse belo e-mail de um grande amigo, pessoa sensível, que conseguiu me enxergar além da superficialidade. Sou mesmo uma pessoa triste, um tanto melancólica, mas não sei precisar por quais motivos. Possuo alguns, que não quero citar aqui, no entanto, às vezes, tenho a impressão de que são apenas pretextos, que eu sempre me senti assim, sozinha, deslocada, desde pequenina. Queria muito ser diferente, mas não consigo. Pensei que, ao menos, fora da literatura, eu disfarçava bem esse meu jeito, parece que não. Confesso, portanto, ao meu amigo: sim, existem alguns ratos famintos dentro de mim.
13 de janeiro de 2013
Cavalgada
Para Roberval Pereyr
Num mundo de farpas, cavalgo.
Esquecida entre feras
e abismos, duvido.
E calo.
Feitas as contas,
– sob o lombo do meu cavalo –
carrego apenas:
sono, dores, dilemas.
6 de janeiro de 2013
A vida dentro dos livros
Estamos bem, mãe. Paris é linda! A. está
radiante. E eu estou muito contente, em saber que a estou fazendo feliz.
Encontraremos com P. na semana que vem. Ele nos levará até a Suíça. Vamos
revelar todas as fotos e enviaremos para a senhora. Prometo. Dê lembranças ao
vovô e a L. Em breve estaremos de volta. Um beijo carinhoso deste que te ama,
V. Lágrimas nos olhos, coração cheio de saudades de um filho que já não existe,
ela coloca o cartão postal − enviado em 1982 − dentro do velho livro, e o
guarda na gaveta da cômoda. Exatamente como faz, há 30 anos, todos os dias,
antes de dormir.
18 de dezembro de 2012
Bolsa Funarte de Criação Literária
No dia 12 de dezembro, saiu o resultado da Bolsa de Criação Literária da Biblioteca Nacional. Eu fui uma das contempladas (ainda nem acredito), com o
projeto do livro Ruínas. Fiquei feliz. Pela bolsa, claro, mas,
principalmente, pelo fato de pessoas que não me conheciam terem
gostado dos meus textos. Desconfiada como sou com o que escrevo, bom saber
disso. Agradeço à Gal Meirelles - que me ajudou com a escrita do projeto -
e ao poeta Roberval Pereyr - que escolheu, comigo, os minicontos
a serem enviados. Sou grata ainda a todos os meus amigos, que sempre me
incentivam e torcem por mim.
7 de dezembro de 2012
Convite
![]() |
| (clique para ampliar) |
No
dia 13 de dezembro, às 17 horas, estarei participando do Leituras Públicas: o encontro do texto com o leitor, ao lado de Elieser César,
Igor Rossoni e Mariana Paiva. A mediação é de Gal Meirelles.
Para maiores informações, clique aqui.
Para maiores informações, clique aqui.
10 de outubro de 2012
Uma lembrança vermelha
Quando
criança, acreditava que ser policial significava fazer justiça, acabar com a
impunidade. Sabia, exatamente, o que seria quando adulto. Sempre quis
combater o crime. O problema é que nunca me dei muito bem com corpos
ensanguentados. Pensei várias vezes em mudar de profissão. Talvez, não tenha
mesmo feito a escolha correta. No entanto, sempre decido continuar tentando.
Afinal, tenho apenas dois anos na polícia, devo me acostumar. Numa ocorrência,
há um mês, me deparei com um professor assassinado no jardim de uma
bonita mansão. Tinha uma expressão de terror nos olhos. Ao seu redor,
sangue e rosas vermelhas. Cuidei de todo o caso, tomei as devidas providências
e fui embora arrasado. Ao passar por um jovem lavando carros imaginei que, pelo
menos, ele chegaria feliz em casa ao fim do dia. Bobagem. Não podia pensar
assim. Aquele rapaz que iria gostar de estar no meu lugar. Durante toda a
semana seguinte, não consegui me concentrar nos relatórios. A imagem do
professor me perseguia e eu resolvi que precisava de férias. Logo estaria bem.
Fiz uma viagem ao exterior e, de fato, voltei revigorado. Só necessitava,
agora, de um bom banho e estaria pronto para retornar ao trabalho. Vesti de
novo a farda e segui para a corporação. Na esquina com a avenida principal, uma
floricultura. Lembrei de um homem morto e do seu olhar. Quanto será mesmo o
salário de um lavador de carros?
29 de setembro de 2012
Romance
Era romancista consagrada. Passou o dia inteiro escrevendo uma história de
amor. À noite, deitou-se na cama vazia.
26 de setembro de 2012
Os intocáveis

Os intocáveis, de Boileau-Narcejac, pseudônimo forjado pela dupla de escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, é um claro exemplo do relato policial de ação. O romance conta a história de dois párias, intocáveis pela desonra: o desempregado Jean-Marie Quéré e o ex-prisioneiro Ronan De Guer. Ler mais.
20 de setembro de 2012
Amor
8 de setembro de 2012
Téo
![]() |
| O rapaz e o cão (1905) - Pablo Picasso |
Mais do que um amigo, era o meu confidente. A ele, confessava todas as minhas feridas. Não me julgava, apenas ouvia. Às noites, colocava-o no meu colo, pois percebia que precisava de carinho. Sim, sempre fui carente de afeto. Certa manhã, subimos o morro para levar o almoço dos meus avós – como fazíamos todos os dias – e, na metade do caminho, tiros. Corri o mais rápido que pude, puxando Téo pela coleira. De repente, tive que parar. Olhei para trás. Havia uma mancha vermelha no pescoço do meu companheiro. Carreguei-o até o beco mais próximo, ele agonizava em meus braços. Enquanto isso, eu, que ainda não tinha aprendido a morrer, sangrava em silêncio.
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