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2 de janeiro de 2016

Homenagem para a minha amiga Déia




O que falar sobre Andréia Gallo, a minha amiga Déia? O retrato da serenidade, da delicadeza, da simplicidade, do cuidado com as pessoas ao seu redor. Excelente filha, professora dedicada, esposa amorosa, amiga generosa. Déia, para mim, era um ser superior, sempre tranquila, doce, levando paz para todos que conviviam com ela. Fui aluna de Déia, em 2005, e daí começamos uma amizade que durou 10 anos. Lutei muito para conseguir a pílula contra o câncer para ela, queria tanto que ela aguentasse um pouco mais até a chegada do remédio, mas não foi essa a vontade de Deus. Quero me lembrar sempre dela como estava na foto acima, bem, contente, sem dores. E levarei comigo as três últimas palavras que ela me disse, quase sussurrando, quando fui visitá-la no sábado, dia 26 de dezembro de 2015, na unidade semi-intensiva: “Eu te amo”. Oh, minha amiga, apesar de eu já ter lhe dito isso algumas vezes, queria muito ter a certeza de que você partiu sabendo que eu também a amava e amo, e o quanto eu queria te ver bem, curada. Vá em paz, Déia! Que Deus dê forças ao que foi o seu companheiro de 24 anos, Mayrant Gallo, a mim, e a todos aqueles que tiveram o privilégio de sua amizade.


7 de fevereiro de 2013

O peso do tempo

















        Talvez seja um pouco tarde para escrever sobre o assunto, mas apenas ontem, ao ler uma matéria sobre a morte de Walmor Chagas, fiquei inquieta. O ator, aos 82 anos, sofria de uma doença ocular que o impedia de ler (uma das coisas que mais gostava), ficando, para isso, dependente da filha. Começou, então, a achar que estava incomodando. "Num dia é o pára-choque, no outro é a rebimboca da parafuseta", brincava Walmor Chagas, com relação aos vários exames que se submetia nos últimos dias. Diabético, foi diagnosticado também com gastrite e esofagite. Ao conversar com o amigo Antônio Cardoso, o ator confessou que “queria morrer antes de usar fraldão”. Camus escreveu que “o suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo”. Sim, e é tão difícil, pelo menos para mim, compreender o que leva uma pessoa a tirar a própria vida, enquanto eu, vivo com medo da morte, por mais que a existência, na maioria das vezes, se mostre absurda e sem sentido. Quem sabe, com a chegada da velhice, eu possa entender um pouco melhor tudo isso. Parece claro que Walmor Chagas cometeu suicídio por imaginar ser um estorvo na vida da filha, da família, dos amigos. O psicanalista Freud, numa entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926, disse algo que me tocou profundamente: “Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que o fardo que carregamos”. Ele devia ter razão. Só nos resta mesmo torcer para que, no fim da nossa trajetória, possamos aguentar firmes o peso do tempo.

18 de janeiro de 2013

Sobre tédio e ratos famintos

Dois ratos, de Vincent Van Gogh
"[...] Passando a outros temas, me permita perguntar: desde muito, noto em você um sentimento de visível insatisfação, de tédio e, ontem, isso parecia mais acentuado. Não tenciono invadir a sua privacidade, interprete apenas como a inquietação de um amigo. Você já leu Steinbeck, ''Ratos e homens''? Numa passagem do livro, um dos personagens, olhando para dois amigos que se afastam, pergunta: ''O que está roendo esses homens?" Eu pergunto a mesma coisa para você, o que está roendo o seu espírito? Algo se agita em seu interior, algum tipo de insatisfação. O que há com você? Por que parece eternamente em crise? Todos os homens são infelizes, cada um é infeliz a sua maneira, foi com Tolstói que aprendi isso. A infelicidade veio para todos e a angústia também, mas podemos amenizá-la, compreende? Os amigos servem para isso, para dividir o fardo da existência. O que eu posso fazer por você?"

Acabo de receber esse belo e-mail de um grande amigo, pessoa sensível, que conseguiu me enxergar além da superficialidade. Sou mesmo uma pessoa triste, um tanto melancólica, mas não sei precisar por quais motivos. Possuo alguns, que não quero citar aqui, no entanto, às vezes, tenho a impressão de que são apenas pretextos, que eu sempre me senti assim, sozinha, deslocada, desde pequenina. Queria muito ser diferente, mas não consigo. Pensei que, ao menos, fora da literatura, eu disfarçava bem esse meu jeito, parece que não. Confesso, portanto, ao meu amigo: sim, existem alguns ratos famintos dentro de mim.