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9 de abril de 2014

Vencedor do 2º Prêmio Brasília de Literatura












Roberval Pereyr foi um dos ganhadores do 2º Prêmio Brasília de Literatura. O seu livro Mirantes ficou em 1º lugar na modalidade Poesia. Estou feliz demais, pois sou admiradora confessa da poesia de Roberval Pereyr e sinto-me honrada em tê-lo como meu orientador ─ no mestrado da UEFS ─ e meu amigo. Roberval, além de grande escritor, é um professor excelente, um orientador atento e um ser humano raro: simples, honesto, sempre pronto a ajudar e dono de uma simpatia sem igual. Esse prêmio é, portanto, um reconhecimento mais do que merecido. 

Abaixo, compartilho o seu poema "Desmentido", um dos meus preferidos: 

DESMENTIDO

Alguém me reconhece num retrato de menino.
Não sou eu: é minha antiga paz.
A história de um homem é sua pista falsa:
estudam meus sonhos, meus passos, meus mapas
e dizem quem sou inutilmente.
Inutilmente.
Porque sou sempre o que vem pelo atalho.

(Roberval Pereyr)


23 de agosto de 2012

As peças do relógio

(clique para aumentar a imagem)

"O relógio que habita esse belo livro de Thiago Lins tem três grandes peças: inicialmente, os poemas inseridos no capítulo denominado 'Tapas'; vindo a seguir os minicontos da segunda parte, 'A fome de um homem', para desaguar nos poemas da terceira e última seção, 'Partilha'. Cada peça desse grande relógio é desmontada a partir de sua construção, a fim de que possamos tentar compreender um dos maiores mistérios que há no mundo: o tempo dos homens." 

 (Ângela Vilma)

Com o texto acima, a escritora Ângela Vilma inicia a apresentação do livro do meu grande amigo, padrinho e quase irmão, Thiago Lins. E eu posso até ser suspeita, mas o livro está um primor, repleto de belos e fortes poemas. 

Uma pequena prévia:

TAPAS

Meu pai desferiu três tapas:
O primeiro, em casa.
O segundo, na escola.
O terceiro, pro resto da vida.


LINS, Thiago. In: As peças do relógio. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012, p. 20.

9 de abril de 2012

Herança
















há uma mangueira em minha vida
não tive barbies, bicicletas
ou festas de aniversário
só uma velha e frondosa mangueira
a mangueira me deu tudo
e eu nunca soube ser muito infeliz

MENEZES, Mônica. In: Estranhamentos. P55 Edições, 2010.

Sim, sei que precisamos separar o eu-poético do poeta. Não faltei a essa aula de Literatura. No entanto, espero que a poetisa Mônica Menezes tenha falado dela quando escreveu os versos acima. Porque ela não merece mesmo "ser muito infeliz". Mônica é uma pessoa linda, uma amiga querida, que merece toda a felicidade do mundo. E não apenas hoje, no dia do seu aniversário, mas sempre. Pois se "felicidade se acha é só em horinhas de descuido", como nos ensinou o velho Guimarães Rosa, torço para que os momentos de felicidade de Mônica sejam constantes. PARABÉNS, amiga. Adoro a tua poesia, adoro você. 

Um pouco mais do talento de Mônica Menezes, clicando aqui.

22 de janeiro de 2012

Roberval Pereyr e o Prêmio Braskem

















SONDAGEM

As soluções? Não há.
Mas a vida prossegue, eterna.
Por isso há plantas e bichos
e o homem no mundo. E a terra.

Ou então não é nada disso
e não faz sentido algum
esta dor de dente. E essa festa.

PEREYR, Roberval. In: Amálgama. Salvador: FUNCEB, 2004.

É, talvez a vida não faça mesmo sentido algum. Nem as dores de dente.  E nem as festas. Mas, hoje, eu proponho uma bonita festa. E esta fará muito sentido, pois será em homenagem ao meu amigo Roberval Pereyr, grande professor, grande ser humano, grande poeta. O seu livro Mirante foi vencedor do Prêmio Braskem, da Academia de Letras da Bahia, edição 2011, dedicada à poesia. PARABÉNS, Roberval Pereyr, por esta premiação, muito mais do que merecida.

17 de dezembro de 2011

O longo adeus, de Raymond Chandler

Raymond Chandler, um grande escritor do gênero policial noir
           
"Depois ela sentou-se e levantou-se da cama; foi até o banheiro para dar um jeito no rosto. Trouxe o champanhe. Quando ela voltou, estava sorrindo.
- Desculpe pelo choro. Daqui a seis meses não irei sequer me lembrar do seu nome. Traga o champanhe para a sala. Quero ver luzes.
Fiz o que ela disse. Sentou-se no sofá como antes. Coloquei o champanhe na sua frente. Ela olhou para a taça, mas não tocou nela.
- Terei de me apresentar? – disse eu – Tomaremos um drinque juntos.
- Como hoje?
- Nunca mais será como foi hoje.
Levantou a taça de champanhe, bebeu um pouco, lentamente, virou o corpo no sofá e jogou o resto na minha cara. E começou a chorar de novo. Tirei o lenço, enxuguei meu rosto e enxuguei o dela também.
- Não sei por que fiz isto. Mas pelo amor de Deus não diga que sou mulher e que uma mulher nunca sabe por que faz ou deixa de fazer qualquer coisa.
Servi um pouco mais de champanhe na sua taça e ri. Bebeu-a lentamente, depois virou-se para o outro lado e aninhou-se nos meus joelhos.
- Estou exausta. Você vai ter de me carregar.
Passado um tempo, caiu no sono.
De manhã ainda dormia quando me levantei e fiz café. Tomei um chuveiro, fiz a barba e me vesti. Foi então que ela acordou. Tomamos café da manhã juntos. Chamei um táxi e carreguei sua maleta escada abaixo.
Dissemos adeus um ao outro. Vi o táxi desaparecer. Voltei a subir os degraus e fui até o quarto; arrumei a cama. Havia um fio de cabelo comprido e preto no travesseiro. Havia uma massa informe na boca do meu estômago.
Os franceses têm uma expressão para isso. Os desgraçados dos franceses têm uma frase para tudo e estão sempre com a razão.
Dizer adeus é morrer um pouco."

(CHANDLER, Raymond. O longo adeus. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 365-366) 
 

10 de dezembro de 2011

Revista e prêmio Hera




No dia 06.12, no Palácio da Aclamação, em Salvador, através da Fundação Pedro Calmon e da UEFS Editora, foi lançada a edição fac-similar da Revista Hera, que reúne os 20 números da revista literária baiana, que circulou de 1972 a 2005. Idealizada pelo poeta Antônio Brasileiro, a Hera contou com o apoio e a participação de vários escritores, sobretudo, de Feira de Santana. 



Ontem, o meu amigo poeta Roberval Pereyr - integrante do grupo Hera - presenteou-me com um exemplar da nova edição da revista. Ainda estou aqui lendo, com enorme gratidão e prazer. Há alguns meses, conversando com outro integrante da Hera, o amigo poeta Wilson Pereira de Jesus, tomei conhecimento da edição nº 14, de 1982, em que todo o grupo homenageia o grande Carlos Drummond de Andrade, pelo seu aniversário de 80 anos. Reproduzo, logo abaixo, algumas relíquias (basta clicar nas imagens para aumentá-las):

Poema escrito por Wilson Pereira de Jesus

As assinaturas dos poetas da Revista Hera





Carta escrita por Carlos Drummond de Andrade



Para quem não conseguiu ler, está escrito:  

         Que coisa comovedora, o número especial de Hera assinado por todos os colaboradores, em honra de um poeta que completou 80 anos! Senti fisicamente a solidariedade, o carinho, o espírito fraternal dos companheiros mais moços, em torno de mim. E isto me fez feliz. Agradeço a vocês todos com o que melhor possa haver em meu coração. 

         Afetuoso e coletivo abraço de

                                                                   Carlos Drummond de Andrade

Agradeço ao amigo Wilson Pereira de Jesus por ter me cedido essas imagens. E aproveito para parabenizar a todos os poetas envolvidos nesse belo projeto que deu certo: a Revista Hera. Pena que não pude estar no lançamento da edição fac-similar, mas tenho certeza de que foi uma grande e merecida festa.

Quero divulgar, ainda, uma prévia do documentário Tempos de Hera, que será produzido pelo pessoal do movimento Bahiadoc - arte documento.

E falando em Hera, parabenizo também o meu amigo escritor Carlos Barbosa, vencedor do Prêmio Hera, na categoria obra publicada, e o amigo Paulo André, também ganhador, na categoria dissertação. Estou muito contente pelos dois.
 

5 de dezembro de 2011

Um presente poético

O poema abaixo, dedicado a mim e repleto de belas imagens, foi escrito pelo professor José Carlos Sant Anna - que mantém o blogue Tão Preto – Ausente de si mesmo. Fica aqui registrada a minha gratidão e o meu encantamento.















Tecendo

Para Lidi

De que serve a ternura
ou a carícia tão doce
do mar em plena lua cheia?

De que serve o vôo fácil,
rasante, nas cataratas do prazer,
se teu sangue não coagula?

De que servem as vogais
infiltradas no teu nome
roendo o fruto, a semente
se não irrigam tua vida?

De que serve o júbilo
se o mistério não existe
e o absoluto é um pecado
sob músculos e ossos?

De que serve o estigma
se a terra é tua vida
e a razão impele-a à dor
emasculando o grito?

De que serve o rio
náufrago, viúvo da insensatez,
que percorre tuas veias?

De que serve? De que serve?

12 de novembro de 2011

Eterno



Tenho de ti tanta saudade...
E sendo leve te atravesso
Como ao vento da tarde

VILMA, Ângela. Poemas para Antonio. Salvador: P55 Edições, 2010.



Saudades de Ângela, que é assim como a sua poesia: bela, leve, terna, eterna, alada. Acabo de chegar de viagem, estava em Brumado. E só agora pude vir aqui desejar um FELIZ ANIVERSÁRIO a minha amiga, que tanto adoro e admiro. Espero que ela me perdoe pelos dias de atraso. PARABÉNS, Aero, sinta-se abraçada. Você é uma amiga especial, sempre por perto, apesar da distância.

2 de outubro de 2011

ANDRÔMEDA E OUTROS CONTOS

Confesso que ainda não conhecia a prosa de Ruy Espinheira Filho, apesar do autor já ter publicado contos, novelas e romances. O tom memorialista dos seus poemas já havia me encantado outrora, no entanto, com Andrômeda e outros contos eu me senti, completamente, transportada para muito longe dessa “rua vulgar, cinzenta” na qual habito.
Mas como não tenho pretensão de escrever crítica literária, até porque “Rilke dizia que não há nada mais distante da poesia do que a crítica, o que também serve para a ficção”, queria apenas deixar registrada a minha sensação ao ler os contos de Ruy Espinheira Filho: se “onde há literatura, sendo escrita ou lida, não há solidão”, posso afirmar que estive muito bem acompanhada por suas narrativas.
De fato, “o tempo passa, mas a memória fica” e isso acontece “para o bem ou para o mal”. E as pequenas histórias - epifanias - que o autor nos oferece, provam isso: as lembranças de um homem que, ainda menino, perde a inocência quando percebe que os aeroportos inauguram sem ele, levando o sonho, pois o mundo segue, mesmo com a nossa ausência; de uma senhora que, no final de sua vida, se encontra só, porque “de repente” todos morreram e nem a sua casa lhe restou, apenas a nostalgia e a preocupação com o filho, pelas estradas, “cada vez mais perigosas”; da irmã e do amigo de uma escritora que morre por se sentir cansada da espera de ver valorizada a sua literatura; de amigos que recordam um dia luminoso, de extrema clareza, e que não volta mais; enfim, as memórias de algumas almas leves e cintilantes a viajar pelo Tempo.
Ao ler Andrômeda e outros contos fui levada para frente daquela “porta verde num muro branco” como no conto de H. G. Wells. Ainda bem que não hesitei em adentrar esse mundo fantástico. Ainda bem que “existem editores que lêem os originais com capacidade de julgamento e aceitam arriscar seu dinheiro quando descobrem um bom texto. São raros, cada vez mais raros, mas existem”. Ainda bem que há iniciativas como as do Banco Capital e escritores como Ruy Espinheira Filho, que sempre nos levarão às portas verdes. E ainda bem que eu tenho um amigo escritor chamado Carlos Barbosa para me apresentar livros tão tocantes como o Andrômeda e outros contos.
      Só lamento mesmo não ficar sabendo o que era “aquilo no sovaco de Bira”.


22 de setembro de 2011


"[...] sinto uma tristeza que já esperava e que vem só de mim. Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza nas minhas fotografias da infância. Que hoje essa tristeza, sentindo-a como a mesma que sempre senti, quase pode ter o meu nome, tanto ela se parece comigo."

DURAS, Marguerite. O amante. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.

27 de agosto de 2011

Acho que precisava passar por momentos de tristeza para perceber que tenho grandes amigos. E o poeta Paulo André - que mantém o blogue Intestino Grosso II - é um deles. Obrigada, amigo Paulo, por tuas "palavras belas".



Queria te dizer palavras belas, amiga,
palavras que lavassem tua dor e tristeza.
Mas sou da estirpe dos desiludidos,
Por isso, só posso te dizer, amiga:
“A vida não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos [às vezes] se entendem, mas as almas não”.

19 de agosto de 2011

No domingo passado, comentei no Estranhamentos - blogue da minha amiga escritora Mônica Menezes - que eu estava triste. Ela não precisou me perguntar o motivo das minhas dores para me escrever um bilhete-poema lindíssimo e fazer a leitura da minha alma. Mônica tem esse dom. E eu fico tão emocionada ao saber que tenho amigos especiais que me querem bem. Vejo que não estou mesmo sozinha. E só me resta agradecer por todo esse carinho.





















Bilhete


Para Lidi

oh, querida amiga,
se você morasse nesta cidade
eu te convidaria para um chá de maçã com canela na minha casa
e conversaríamos horas a fio sobre nossos abismos
enquanto uma chuva fina caísse lá fora

escuta
viver é sempre desmesurado difícil
mas há tanta beleza ao longo dos caminhos

agora mesmo
a senhora vizinha começou a cantarolar uma valsa triste
lembrando-se, talvez, de um grande amor

26 de junho de 2011

Mauro Piva, sem título, massa modelar, 2000.



















NADA

Toc! Toc! Não tem nada aqui, só uma pedra a rasgar-me por dentro. O rio que habita em mim já não derrama letra alguma. O olho secou, o lábio secou, a vida secou. O cheiro de mofo a impregnar-me as narinas, o sentimento de morte a avassalar o meu peito. Toc! Toc! O outro insiste. Tudo é secura, eu já disse. Secura sem verbo, secura da carne, secura. Só o formol a preservar o meu corpo, sem rosto, sem vida, sem nada. Tic-tac. Passa o tempo, nada a passar, só há falta. A falta a caminhar com o tempo; o tempo a apontar para morte. A vida é pétrea, disse o poeta. Nada me resta, nada é o que resta, só o fim permanece: penso comigo. A palavra exilou-se de mim, levando consigo a alegria, a tristeza. Ficou esta pedra a cavar-me um vale profundo, sem cor, sem dor, sem beleza, do tamanho da tampa que cobre o universo.  

Adriano Alves

6 de abril de 2011




IDEAÇÃO*

Lápis e caderno
na cabeça,
poesia e sentimento
nas mãos.

post Glauber Rocha




* Poema escrito por
Adriano Alves, que mantém o blogue Sapere aude.

21 de fevereiro de 2011














Conversas do Sertão

Agradeço muito a Deus pelos amigos que tenho, pois são pessoas mais do que especiais. Acabo de receber uma belíssima homenagem do meu amigo escritor Rubervânio Lima, o Rubinho. Está no Conversas do Sertão, o blogue dele. Ainda estou emocionada. Nem sei como agradecer tamanho carinho.

21 de janeiro de 2011

Hoje, recebi de presente, do meu amigo Ricardo Thadeu, um poema. E a minha forma de agradecer ao poeta é deixando registrado aqui os seus versos:

MAR
para Lidi Nunes

uma onda de gente
...
geme enquanto nada

(...)


no ônibus lotado,

permaneço atado
a meu próprio leme

Ricardo Thadeu
é mais um jovem poeta participante do projeto Sangue Novo.

9 de janeiro de 2011

Aqui estou eu para divulgar mais um blogue. Desta vez, da amiga Érica Azevedo, excelente poeta, na minha humilde opinião. Érica estudou comigo durante 5 anos, na UEFS. Ela sempre me mostrava os seus poemas e eu lhe mostrava os meus rabiscos. Era uma troca, um constante diálogo. E até hoje é assim. Mas, agora, depois de muito adiar, minha amiga Érica resolveu sair em busca de Outros diálogos. Para que vocês conheçam o talento dessa  jovem, e como agradecimento, publico aqui o poema que ela, generosamente, me dedicou:

Borboletar
Para Lidiane Nunes
       
Como uma borboleta
sinto o cheiro do ar
que impulsiona
e leva para lá,
para (além do) cá...

Mas só em pensamentos consigo saltar
e somente por instantes a sensação de voar
livra-me da condição
de ser
e do peso de estar.

Érica Azevedo - assim como eu - está entre os 21 participantes do projeto Sangue Novo, coordenado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo. 

2 de janeiro de 2011


"Os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes. Se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela. Se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida."

BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

30 de agosto de 2010

Como havia anunciado na postagem anterior, não fui ao lançamento dos livros de Ângela Vilma e Mônica Menezes. Confesso: perdi o que era imperdível. No entanto, Mayrant Gallo, gentilmente, comprou os livros e me enviou por Andréia, sua esposa, que ensina na UEFS. Sou  grata aos dois, por tudo. Com os livros em mãos, nem esperei chegar ao conforto do meu lar para iniciar a leitura. Contudo, logo me veio um questionamento: eu estou lendo ou estou sendo lida? Quintana nos ensinou: “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!”. Os versos de Mônica, sempre leves, fizeram uma leitura de mim, com seus gritos, seus silêncios, suas máscaras, seus mares e suas borboletas. Nem sei mais o que comentar. Diante deles, como escrevi, certa vez: "só me resta / dizer sim".


SOLUÇO
Para Monalisa 

todos os meus soluços são relâmpegos
anunciam trovões e tempestades

mas apenas anunciam

todos os meus gritos são soluços
todos os soluços silencio


MENEZES, Mônica. Estranhamentos. Salvador: P55 Edições, 2010. 



E a poesia de Ângela? Eu ia lendo os seus versos e pensando: quero escrever assim quando eu crescer. O que é praticamente impossível, eu sei, mas não custa nada sonhar. Os versos de Ângela me envolveram de forma especial: repletos de solidão, ausência, inquietude, silêncio, saudade, cansaço e, ao mesmo tempo, cheios de amor, ternura, entrega, carinho, sentidos, revelando uma menina-mulher clamando por Antonio. Sem dúvida, a leitura de Poemas para Antonio e de Estranhamentos me proporcionou um prazer imenso, daqueles que só a arte, a literatura, a genuína poesia podem proporcionar. 


PARA ADORMECER

Dê-me, amigo,
Tua paciência pela vida
E me faça desistir do cansaço
Dessas noites e de tantas outras.

Pressinta meus gestos guardados
Retire-os dos baús entulhados
Tocando-os com dedos esquecidos.

Depois,
Não me fales da vida.
Guardemos a alegria silenciosa.

VILMA, Ângela. Poemas para Antonio. Salvador: P55 Edições, 2010.

15 de agosto de 2010

Lendo a antologia, organizada por Assis Brasil, A poesia baiana do século XX, deparei-me com os versos abaixo, da itabunense Valdelice Pinheiro Soares, falecida em 1993. Sem dúvida, um poema que eu gostaria de ter escrito. 














RABISCOS

Deixo que a mão vá
como se fosse asa
e traga do silêncio
de mim
o riso,
ou a palavra
que eu não digo,
ou a música
que eu não faço.
Deixo que a mão vá
e busque
na solidão
de onde não me sei,
o risco que me traça
o grito,
a linha que me traz
a voz.
Deixo que a mão vá e,
como se fosse um deus
fiando luz,
me crie
de meu nada.