Quando
criança, acreditava que ser policial significava fazer justiça, acabar com a
impunidade. Sabia, exatamente, o que seria quando adulto. Sempre quis
combater o crime. O problema é que nunca me dei muito bem com corpos
ensanguentados. Pensei várias vezes em mudar de profissão. Talvez, não tenha
mesmo feito a escolha correta. No entanto, sempre decido continuar tentando.
Afinal, tenho apenas dois anos na polícia, devo me acostumar. Numa ocorrência,
há um mês, me deparei com um professor assassinado no jardim de uma
bonita mansão. Tinha uma expressão de terror nos olhos. Ao seu redor,
sangue e rosas vermelhas. Cuidei de todo o caso, tomei as devidas providências
e fui embora arrasado. Ao passar por um jovem lavando carros imaginei que, pelo
menos, ele chegaria feliz em casa ao fim do dia. Bobagem. Não podia pensar
assim. Aquele rapaz que iria gostar de estar no meu lugar. Durante toda a
semana seguinte, não consegui me concentrar nos relatórios. A imagem do
professor me perseguia e eu resolvi que precisava de férias. Logo estaria bem.
Fiz uma viagem ao exterior e, de fato, voltei revigorado. Só necessitava,
agora, de um bom banho e estaria pronto para retornar ao trabalho. Vesti de
novo a farda e segui para a corporação. Na esquina com a avenida principal, uma
floricultura. Lembrei de um homem morto e do seu olhar. Quanto será mesmo o
salário de um lavador de carros?
10 de outubro de 2012
29 de setembro de 2012
Romance
Era romancista consagrada. Passou o dia inteiro escrevendo uma história de
amor. À noite, deitou-se na cama vazia.
26 de setembro de 2012
Os intocáveis

Os intocáveis, de Boileau-Narcejac, pseudônimo forjado pela dupla de escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, é um claro exemplo do relato policial de ação. O romance conta a história de dois párias, intocáveis pela desonra: o desempregado Jean-Marie Quéré e o ex-prisioneiro Ronan De Guer. Ler mais.
20 de setembro de 2012
Amor
8 de setembro de 2012
Téo
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| O rapaz e o cão (1905) - Pablo Picasso |
Mais do que um amigo, era o meu confidente. A ele, confessava todas as minhas feridas. Não me julgava, apenas ouvia. Às noites, colocava-o no meu colo, pois percebia que precisava de carinho. Sim, sempre fui carente de afeto. Certa manhã, subimos o morro para levar o almoço dos meus avós – como fazíamos todos os dias – e, na metade do caminho, tiros. Corri o mais rápido que pude, puxando Téo pela coleira. De repente, tive que parar. Olhei para trás. Havia uma mancha vermelha no pescoço do meu companheiro. Carreguei-o até o beco mais próximo, ele agonizava em meus braços. Enquanto isso, eu, que ainda não tinha aprendido a morrer, sangrava em silêncio.
23 de agosto de 2012
As peças do relógio
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| (clique para aumentar a imagem) |
"O relógio que habita esse belo livro de Thiago Lins tem três grandes peças: inicialmente, os poemas inseridos no capítulo denominado 'Tapas'; vindo a seguir os minicontos da segunda parte, 'A fome de um homem', para desaguar nos poemas da terceira e última seção, 'Partilha'. Cada peça desse grande relógio é desmontada a partir de sua construção, a fim de que possamos tentar compreender um dos maiores mistérios que há no mundo: o tempo dos homens."
(Ângela Vilma)
Com o texto acima, a escritora Ângela Vilma inicia a apresentação do livro do meu grande amigo, padrinho e quase irmão, Thiago Lins. E eu posso até ser suspeita, mas o livro está um primor, repleto de belos e fortes poemas.
Uma pequena prévia:
Uma pequena prévia:
TAPAS
Meu pai desferiu três tapas:
O primeiro, em casa.
O segundo, na escola.
O terceiro, pro resto da vida.
LINS, Thiago. In: As peças do relógio. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012, p. 20.
11 de agosto de 2012
Aniversário
A família toda reunida,
amigos, presentes, abraços,
desejos de felicidade.
A vida inteira pela frente.
E aquela dor insistente
atravessando o peito.
26 de julho de 2012
Rotina
Chegou em casa tarde da noite. Abriu a porta do quarto e um cubículo não muito limpo, não muito claro e nem um pouco convidativo a recebeu. Tirou o vestido sujo e foi até o banheiro. Permitiu que escorresse sobre o seu corpo a água fria e salobra que pingava do chuveiro. Dez minutos se passaram e estava de volta ao seu acolhedor aposento, contemplando-se diante do velho espelho empoeirado. Sentiu-se desejável, assim como a sua avó deve ter se sentido ao completar 80 anos. Lembrou-se, repentinamente, da rotina que a esperava no dia seguinte e esse pensamento a deixou tão entusiasmada quanto uma dor de dente. Engoliu alguns comprimidos de um pequeno frasco que descansava no fundo da gaveta do criado-mudo e deitou naquilo que aceitava chamar de cama. Dormiu. Cinco horas depois e o insistente toque do despertador a acordou. Foi quando se deu conta, quase com horror, de que ainda estava viva.
12 de junho de 2012
Ondas
Este mar
que avança, submerge
e leva suas águas
ao sabor do vento,
é feito das lágrimas
de uma mulher só
que lava suas mágoas
de um outro tempo.
2 de junho de 2012
Crimes
Era início de abril, estava numa livraria, em Salvador, com Mayrant e Andréia Gallo, procurando alguns livros policiais, quando me deparei com Crimes, escrito pelo criminalista alemão Ferdinand Von Schirach. Como eu já tinha comprado vários livros, disse a Mayrant que não levaria este, já que não conhecia o autor, não sabia se valeria a pena. Mas Mayrant se interessou pelo livro e me disse que compraria, leria e, caso fosse bom, me emprestaria. Dias depois, Andréia – que é professora da UEFS, onde também trabalho – chegou com o livro, empréstimo do amigo Mayrant. Como todas as indicações do Gallo são certeiras, soube naquele momento que havíamos, de fato, encontrado um bom livro. Crimes já foi publicado em dezenas de países e, só na Alemanha, vendeu mais de 350 mil exemplares. Quanto ao gênero dos onze relatos, discute-se a cada publicação. Nos EUA, o livro foi considerado como ficção; no Brasil, como não ficção. “O que não muda o fato de serem textos magnificamente escritos, com a rara capacidade de borrar qualquer fronteira entre vida e arte, realidade e fabulação”, nos observa Luciana Villas-Boas, que assina a orelha. O próprio autor defende se tratarem de fatos reais, no entanto, no prefácio de Heisenberg, escolhido pelo advogado, está escrito: “A realidade da qual podemos falar nunca é a realidade”. No fundo, se é ficção ou não ficção - ou as duas coisas - não importa tanto. “O grande mérito do livro é mostrar que a sociedade moderna não pode se livrar do crime, porque este a integra e a movimenta. Todos os contos, de certa forma, seguem este princípio”, escreveu Mayrant Gallo. O fato é que o livro merece a leitura. Crimes nos envolve, nos emociona, nos inquieta, nos deixa perguntas sem respostas, nos causa terror e compaixão, nos faz torcer pela liberdade de um homem aparentemente inofensivo que, aos 72 anos, mata a mulher e a corta em pedacinhos, nos obriga a refletir: "Chutando uma castanha que caíra em seu caminho, continuou descendo a avenida lentamente, enquanto pensava no fato de que a vida era realmente estranha." (Verão, p. 102). Sim, a vida é muito estranha. E como é complexo saber o que se passa na mente de quem comete um crime e, principalmente, o quanto é difícil - e tão limitado - qualquer julgamento. 20 de maio de 2012
Inspiração
Diante de uma folha em branco
- naquela nebulosa tarde -
decidi escrever um poema.
Com a ponta da caneta no papel
inscrevi ali minha vontade,
apenas.
8 de maio de 2012
Laboratório de poéticas
Mais uma vez, sou grata a José Inácio Vieira de Melo, que selecionou 9 poetas para ilustrar a produção contemporânea da poesia na Bahia, em um artigo para a revista "Laboratório de Poéticas", e me colocou ao lado de nomes como Ricardo Thadeu, Sandro Ornellas, Vitor Nascimento Sá, Emmanuel Mirdad, entre outros.
Conheça a revista clicando aqui. Os meus poemas estão nas páginas 58 e 59.
21 de abril de 2012
A noite
Tenta dormir. Pela milésima vez, vê o seu rosto. Acorda assustada, suando frio, mas não desperta. Aquela imagem resiste aos olhos abertos. Deus, definitivamente, parou de escutar as suas preces. Oito meses se passaram e ele permanece. Já cortou encontros, telefonemas, palavras escritas e outras dores. Tudo em vão: “o passado não passa”, disse o poeta. A ponte rachou e ela continua no mesmo lugar. Não consegue vislumbrar outro caminho. A noite a invade. Ela se fecha em seu canto e veste os frios lençóis. Tenta dormir.
9 de abril de 2012
Herança
há uma mangueira em minha vida
não tive barbies, bicicletas
ou festas de aniversário
só uma velha e frondosa mangueira
a mangueira me deu tudo
e eu nunca soube ser muito infeliz
MENEZES, Mônica. In: Estranhamentos. P55 Edições, 2010.
MENEZES, Mônica. In: Estranhamentos. P55 Edições, 2010.
Sim, sei que precisamos separar o eu-poético do poeta. Não faltei a essa aula de Literatura. No entanto, espero que a poetisa Mônica Menezes tenha falado dela quando escreveu os versos acima. Porque ela não merece mesmo "ser muito infeliz". Mônica é uma pessoa linda, uma amiga querida, que merece toda a felicidade do mundo. E não apenas hoje, no dia do seu aniversário, mas sempre. Pois se "felicidade se acha é só em horinhas de descuido", como nos ensinou o velho Guimarães Rosa, torço para que os momentos de felicidade de Mônica sejam constantes. PARABÉNS, amiga. Adoro a tua poesia, adoro você.
Um pouco mais do talento de Mônica Menezes, clicando aqui.
Um pouco mais do talento de Mônica Menezes, clicando aqui.
3 de abril de 2012
Liberdade
Pediu as suas chaves
de volta,
de volta,
implorou para sair
daquela prisão.
Queria voltar a ver a luz,
queria por um fim
em sua aflição.
Mas quando a porta
se abriu,
perdeu as forças
e sentiu o mais completo
abandono.
Agora,
está trancada no quarto
e só deseja a escuridão
e o sono.
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