8 de setembro de 2012

Téo

O rapaz e o cão (1905) - Pablo Picasso
Mais do que um amigo, era o meu confidente. A ele, confessava todas as minhas feridas. Não me julgava, apenas ouvia. Às noites, colocava-o no meu colo, pois percebia que precisava de carinho. Sim, sempre fui carente de afeto. Certa manhã, subimos o morro para levar o almoço dos meus avós – como fazíamos todos os dias – e, na metade do caminho, tiros. Corri o mais rápido que pude, puxando Téo pela coleira. De repente, tive que parar. Olhei para trás. Havia uma mancha vermelha no pescoço do meu companheiro. Carreguei-o até o beco mais próximo, ele agonizava em meus braços. Enquanto isso, eu, que ainda não tinha aprendido a morrer, sangrava em silêncio.

13 comentários:

  1. Sangrar em silêncio,
    às vezes, é mais dificil
    do que morrer.

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  2. e ha esses momentos em que nos perdemos e nos achamos na coisa que por vezes somos

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    1. Obrigada por sua leitura, Ediney. Abraços.

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  3. Lembrei de antigos companheiros: Muqueca (uma cadelinha enjeitada que foi o primeiro cão de minha casa; tinha uma inteligência fora do comum... quando eu e meu irmão fugíamos, ela nos acompanhava, depois voltava pra casa e chamava minha mãe e a levava onde estivéssemos); Cruzeiro: um pastor, também aparecido, e que foi um grande companheiro. Acompanhava-me até a escola, deitava-se na calçada e me esperava até o fim da manhã, pra voltarmos juntos pra casa. Minha mãe teve de dá-lo, porque minhas crises de asma pioraram muito na época... e depois de fugir de cinco donos e voltar pra casa, acabou sendo envenenado na casa do sexto; Salsicha, um legítimo vira-latas, também aparecido (passou na porta da venda que tínhamos em casa, todos os ossos à mostra, e meu irmão teve piedade e deu comida... ele não saiu mais. Conosco assistiu a pelo menos três copas do mundo. Vivia solto, e era o maior reprodutor da região. Criávamos muitas galinhas, e, quando queríamos pegar uma delas, mandávamos Salsicha, que corria atrás dela no meio de mais de 50, não a perdia de viata e a apanhava, e o fazia sem machucá-la... morreu com pelo menos 15 anos, cego, surdo e mudo, mas saciado de dias...

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    1. Que beleza, Dema! Adorei conhecer os seus antigos companheiros. Ah, e o seu comentário já é literatura, o final então: "morreu com pelo menos 15 anos, cego, surdo e mudo, mas saciado de dias". Muito bom! Obrigada pela visita. Bjs

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    2. Bjs Lidi! E obrigado por me fazer recordar a infância!

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  4. Lidi,
    Quando, enfim, esvai a dor das coisas insensatas que a vida nos reserva, brilha uma grandeza dentro de nós. Então, nos sentimos mais leves...
    Abraços
    José Carlos

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