25 de dezembro de 2013

O jogador

Os jogadores de cartas, de Cézanne















     Apostou alto. Imaginou que ganharia de novo. Era bom nisso. Há anos frequentava o cassino. Perdia algumas vezes, mas, ao final, sempre saía satisfeito. Quase não parava em casa, pouco via a mulher e a filha recém-nascida, mas o que importava mesmo era dar o conforto que elas mereciam. Como suspeitara, ganhou mais uma vez. E, apesar de grande jogador, nunca havia faturado tanto. Definitivamente, era o seu dia de sorte. Nem acreditava na quantia que iria entregar à família. A mulher, que andava chateada com ele, ficaria contente. Agora, ela ainda estaria nos trilhos, indo visitar a mãe. Mas assim que ela chegasse de viagem, ele contaria a novidade. Não via a hora. Rindo alto, levantou-se, apanhou o chapéu e preparava-se para sair quando um colega o segurou no braço e falou, desconcertado, sobre o acidente de trem. Ainda absorto, ele pôs a mão no bolso, depositou todo o dinheiro sobre a mesa e, em silêncio, atravessou a porta.

16 de outubro de 2013

Nunca mais















Olhos fixos no teto. Não queria tomar banho algum. Que o deixassem em paz. Era pedir muito? A sua mulher, desde que ele ficara doente, não era mais a mesma, havia perdido a alegria de outrora. Antes, sempre tão viva e atraente, andava agora triste, cansada, sem esperanças. Em alguns meses, envelhecera anos. Tinha se acostumado com a nova rotina, não reclamava, o que a feria era não ser reconhecida pelo marido. Sabia que não era culpa dele, ninguém escolhia ter Alzheimer. No entanto, doía o fato de ter sido esquecida pela pessoa que mais amava, mesmo involuntariamente. Mas essa era uma realidade que ela precisava enfrentar: o marido não voltaria a ser como antes. Nunca mais. O único momento em que ele se lembrava dela era ao contemplar as suas fotos de quando jovem. Olha que moça linda, cabelos loiros, sorriso encantador. A minha mulher. Eu era apaixonado por ela. Onde ela está? Você a viu? Sou eu, esta sou eu, depois que nos casamos. Não, não é você. Onde já se viu uma doidice dessas? Veja, que belos olhos azuis. Para onde será que ela foi? Dias depois, ao levar comida para o marido, percebeu que ele a observava de modo estranho, com a boca aberta, um ar de criança que está vendo o mar pela primeira vez. Depositou o prato em seu colo e subiu as escadas. Ao retornar, ele perguntou: você viu a moça bonita, loira, de olhos azuis? Tão linda, sorriso encantador... ela esteve aqui, veio me ver. Deixou este prato de comida, subiu as escadas e desapareceu. Estou até agora esperando, olhando lá pra cima, mas ela não voltou, nunca mais voltou.


22 de setembro de 2013

Morangos silvestres





       









O filme sueco Morangos Silvestres, com roteiro e direção de Ingmar Bergman, exibido em 1957, foi considerado pela New York Times um dos 1000 melhores filmes já produzidos e, a meu ver, não existe nenhum exagero nisso. Nos minutos iniciais da película, na passagem do primeiro e estranho sonho do professor de medicina Isak Borg, observei estar diante de um filme com toques surrealistas, no estilo de Luis Buñuel. Mas admito que Ingmar Bergman me encantou muito mais do que conseguiu o cineasta espanhol. Deixando de lado comparações inúteis e voltando a Bergman, ele promove, com Morangos Silvestres, um tipo de road-movie, no qual o personagem Isak Borg faz toda uma revisão existencial. Acometido por sonhos que pareciam querer lhe avisar da proximidade da morte, Isak percebe bem mais do que isso, percebe que sempre caminhou como um morto: frio, insensível, egoísta, afastado de qualquer desejo, de qualquer ato que o tornasse vivo. Velho e solitário descobre, ao fazer uma viagem a Lund, a fim de receber um prêmio honorífico, que ainda havia tempo de se tornar outro frente ao seu filho (que lhe recorda a sua juventude amargurada), à sua nora Marianne, à sua fiel criada e à sua caústica mãe (retrato do que ele, provavelmente, se tornaria). É na estrada que Isak reconhece a leveza e o frescor de três jovens, cheios de planos, que pegam carona e seguem com ele; é na estrada que ele se lembra do seu casamento frustrado, ao acolher um infeliz casal que sofre um acidente de carro; é na estrada que ele compartilha da angústia de Marianne, que está grávida e magoada com o marido, que, cético como o pai, acredita que a vida é mera perda de tempo e, por isso, não vale a pena colocar mais um ser no mundo. O senhor Borg também visita a casa da sua infância e evoca a lembrança do seu amor pela prima Sara, que acaba se casando com seu irmão, bem mais atrevido e intenso do que ele jamais foi capaz de ser. E ao fazer toda essa trajetória, explorando os planos da realidade, do sonho e da memória, Bergman nos faz refletir sobre o sentido da existência e do tempo que passa sem retorno. O filme foi escrito quando Bergman estava internado em um hospital e assistiu à palestra de um médico que falava sobre doenças psicossomáticas. Mais tarde, ele confessa: “Eu criara um personagem que se assemelhava a meu pai, mas que, no fundo, era eu, completamente. Com 37 anos, privado de relações humanas, introvertido e fracassado”. No entanto, com Morangos Silvestres, Bergman nos mostra, também, que até à nossa última viagem, ainda temos meios de consertar as coisas, de levantar do túmulo em que dormimos toda noite e tentar uma nova comunhão conosco, com a vida e com as pessoas que amamos. Morangos Silvestres é, sem dúvida, mais um dos filmes eternos que tive a sorte de assistir.

14 de agosto de 2013

Fardo













Ali estava ele, sentindo o peso de mais um corpo. Dessa vez, de uma jovem e bela mulher, que não tivera prazer algum em matar. Na verdade, nunca matara por prazer, o fazia por dinheiro, no entanto, aquele havia sido o serviço mais difícil de executar. Agora, arrastava o saco preto até o buraco que acabara de abrir num terreno baldio, onde enterraria também o seu passado. Tinha decidido mudar de profissão. Estava cansado. Na manhã seguinte procuraria outro emprego. Ele se dera conta de que já era peso suficiente viver. E arrastar o próprio corpo.

31 de maio de 2013

O líder













       Resolveu entrar numa empresa de marketing multinível. Começou a ganhar muito dinheiro. Desmarcou todas as partidas de futebol agendadas com os amigos. Pediu demissão do emprego e passava horas e horas convencendo as pessoas a entrarem na sua equipe. Terminou o noivado e colocou o pai num asilo. Deixou de ir ao curso de teatro que tanto gostava e doou todos os seus livros para uma biblioteca. Nunca mais tivera tempo de assistir a um filme, mas a sua rede apenas crescia e ele já podia se considerar um homem afortunado. Aos 72 anos, numa manhã, após sentar-se para gerenciar as empresas MMN, das quais era o líder, teve um ataque cardíaco ali mesmo e, uma semana depois, surpreendentemente, nenhum dos seus mais de dez mil afiliados notaram a sua falta.

5 de maio de 2013

A separação

É muito bom saber que "A separação", dirigido por Asghar Farhadi, ganhou uma estatueta do Oscar, em 2012. Sinal de que ainda se valoriza um filme realista, profundo e inquietante. O cinema, felizmente, não está resumido a efeitos especiais. "A separação" nos conta a história de Nader e Simin, que enfrentam um processo de divórcio. Simin quer sair do Irã com o marido e a filha, porém Nader recusa, pois precisa ficar com o pai, idoso e doente, que sofre de Alzhaimer e inspira cuidados. Simin, então, pede a guarda da filha, o que não é atendido. Simin acaba indo morar com a mãe, fazendo Nader ter que contratar uma diarista para cuidar da casa e do pai, enquanto ele se encontra ausente. Até aí estamos a favor de Nader, homem compreensivo, calmo, bom pai e bom filho. 


Mas a história está apenas começando. Razieh, a mulher que foi empregada por Nader, está grávida. Num momento infeliz, ela vai ao médico com a filha, que sempre a acompanha, e, com medo do velho sair e se machucar, o deixa amarrado na cama. Quando Nader chega em casa, o pai está caído e sem oxigênio. Ao voltar, Razieh é empurrada pela porta por Nader, que está furioso. Ela acaba tropeçando na escada e é hospitalizada, quando descobre que perdeu o bebê. Nader é acusado de assassinato. Adentramos agora na atmosfera kafkiana dos processos judiciais no Irã. E ao mesmo tempo que torcemos por Nader, ficamos, aos poucos, conhecendo os seus erros e simpatizando menos com ele. Da mesma forma que também gostamos e odiamos Razieh e o marido. 


Com o decorrer do filme, percebemos que não se sabe quem, de fato, é o culpado. E nem se há culpados. Farhadi cria uma história sem maniqueísmos. Estão todos envolvidos no mesmo drama familiar, religioso, político, moral. Nem nós, espectadores, nem os próprios personagens, tem certeza do que está acontecendo, mas ninguém quer ceder: o marido da empregada, Hodjat, porque precisa levar a denúncia adiante, a fim de receber a indenização, com a qual pagará credores; Razieh, tem dúvidas quanto ao motivo da morte do bebê e não quer mentir, para não ser castigada por Alá, mas não pode dizer o contrário, por medo de o marido, desempregado, ter outra crise depressiva; levado pela vaidade e pelo orgulho, Nader também reluta em tentar um acordo pacífico, porque acha que, assim, estará aceitando a sua condição de criminoso. O mesmo se dá em relação ao processo de separação, nem Nader, nem Simin tem coragem de pedir ao outro para voltar. Em meio a todo esse agônico conflito, está a inteligente e sensível Termeh, filha de Nader e Simin, e a pequena Somayeah, filha de Razieh e Hodjat, duas crianças que sofrem e precisam amadurecer antes do tempo.


O filme termina com a câmera "na mão" − guiando o nosso olhar − enquadrando Nader e Simin, que continua em litígio, distantes e a espera da filha Termeh, que terá que decidir, entre lágrimas, com qual dos dois irá morar. Mas essa resolução o diretor Farhadi não nos deixa saber. Essa análise é nossa. Ele só conta a história, que o espectador faça o julgamento que quiser. Não há aquele típico desfecho hollywoodiano, mas quem precisa dele? A vida é dolorosa, conflituosa, cheia de dúvidas e meias-verdades. E nem sempre nos oferece respostas. 



Podemos perceber também que o filme representa uma metáfora do contexto político e cultural iraniano. Logo na primeira cena, durante a discussão do casal, Simin deixa escapar: "Não posso mais ficar aqui nessa situação". E o juiz questiona: "Que situação?". Simin, intimidada, se cala.  Se os iranianos não podem falar da situação do seu país com palavras, se não podem responder a essa pergunta claramente, ao contrário de permanecerem em silêncio, respondem com a arte cinematográfica. Assim fez Farhadi. Porém, com grandes atuações e uma bela trilha sonora, este forte filme iraniano está longe de tratar apenas de problemas locais. O Irã representa ali uma metonímia, um micromundo. "A separação" é, sobretudo, uma obra universal, intensa e profundamente humana.

17 de março de 2013

Gravidez



Quase não me conheço:
cadê aquela moça
cansada do vaivém
dos dias?

Cheia de sonhos, de alegrias,
não me pareço comigo.
Será que amanheci grávida,
sem ter concebido?

17 de fevereiro de 2013

Bar















     
        Depois de dormir durante doze horas seguidas, ainda me sentia mal. Não nasci para viver só. Apanhei a minha carteira e saí, decidido a beber até esquecer que existia. Entrei no primeiro bar que encontrei, cheio e barulhento. Fiquei. Pedi a bebida mais forte. E quanto mais engolia aquele líquido amargo, mais pensava na morte. Nunca tive coragem, porém. Covarde e idiota. Sempre acreditando, esperando por algo que jamais viria. Do outro lado da rua, um bar vazio. Sequer um bêbado solitário como eu. O homem magro, que ficava no balcão, ia até a porta a cada minuto, estalava os dedos, olhava para os lados e voltava, resignado. Fiquei com pena. Sim, além de idiota, me comovo fácil. Paguei a conta, atravessei a rua, me sentei numa cadeira velha e ensebada e fiz o meu pedido ao magrelo. A bebida estava péssima. Eu me sentia traído. Tive compaixão daquela espelunca e estava sendo lesado. Deveria ter adivinhado, a julgar pelo abandono do local. Rosnei alguma coisa inaudível, fiz cara de poucos amigos, quis ir embora. Fiquei. Tomei outras doses e, uma hora depois, saí, resolvido a caminhar pelas ruas e becos da cidade que conhecia tão bem. Quando as pernas reclamaram, parei para descansar num banco, de onde podia contemplar a lua. Ao menos, era uma companhia. Contei a ela todas as minhas dores. Ela me ouvia, com a natural indiferença dos astros. Até que percebi um arrastar de passos. Não estava mais sozinho. Dois grandes vultos que pareciam estar armados andavam rapidamente em minha direção. Senti falta da solidão do bar. Pela primeira vez, temi pelo que poderia acontecer. Pensei na minha vida de merda. Fiquei.

7 de fevereiro de 2013

O peso do tempo

















        Talvez seja um pouco tarde para escrever sobre o assunto, mas apenas ontem, ao ler uma matéria sobre a morte de Walmor Chagas, fiquei inquieta. O ator, aos 82 anos, sofria de uma doença ocular que o impedia de ler (uma das coisas que mais gostava), ficando, para isso, dependente da filha. Começou, então, a achar que estava incomodando. "Num dia é o pára-choque, no outro é a rebimboca da parafuseta", brincava Walmor Chagas, com relação aos vários exames que se submetia nos últimos dias. Diabético, foi diagnosticado também com gastrite e esofagite. Ao conversar com o amigo Antônio Cardoso, o ator confessou que “queria morrer antes de usar fraldão”. Camus escreveu que “o suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo”. Sim, e é tão difícil, pelo menos para mim, compreender o que leva uma pessoa a tirar a própria vida, enquanto eu, vivo com medo da morte, por mais que a existência, na maioria das vezes, se mostre absurda e sem sentido. Quem sabe, com a chegada da velhice, eu possa entender um pouco melhor tudo isso. Parece claro que Walmor Chagas cometeu suicídio por imaginar ser um estorvo na vida da filha, da família, dos amigos. O psicanalista Freud, numa entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926, disse algo que me tocou profundamente: “Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que o fardo que carregamos”. Ele devia ter razão. Só nos resta mesmo torcer para que, no fim da nossa trajetória, possamos aguentar firmes o peso do tempo.

18 de janeiro de 2013

Sobre tédio e ratos famintos

Dois ratos, de Vincent Van Gogh
"[...] Passando a outros temas, me permita perguntar: desde muito, noto em você um sentimento de visível insatisfação, de tédio e, ontem, isso parecia mais acentuado. Não tenciono invadir a sua privacidade, interprete apenas como a inquietação de um amigo. Você já leu Steinbeck, ''Ratos e homens''? Numa passagem do livro, um dos personagens, olhando para dois amigos que se afastam, pergunta: ''O que está roendo esses homens?" Eu pergunto a mesma coisa para você, o que está roendo o seu espírito? Algo se agita em seu interior, algum tipo de insatisfação. O que há com você? Por que parece eternamente em crise? Todos os homens são infelizes, cada um é infeliz a sua maneira, foi com Tolstói que aprendi isso. A infelicidade veio para todos e a angústia também, mas podemos amenizá-la, compreende? Os amigos servem para isso, para dividir o fardo da existência. O que eu posso fazer por você?"

Acabo de receber esse belo e-mail de um grande amigo, pessoa sensível, que conseguiu me enxergar além da superficialidade. Sou mesmo uma pessoa triste, um tanto melancólica, mas não sei precisar por quais motivos. Possuo alguns, que não quero citar aqui, no entanto, às vezes, tenho a impressão de que são apenas pretextos, que eu sempre me senti assim, sozinha, deslocada, desde pequenina. Queria muito ser diferente, mas não consigo. Pensei que, ao menos, fora da literatura, eu disfarçava bem esse meu jeito, parece que não. Confesso, portanto, ao meu amigo: sim, existiem alguns ratos famintos dentro de mim.

13 de janeiro de 2013

Cavalgada














Para Roberval Pereyr

Num mundo de farpas, cavalgo. 
Esquecida entre feras 
e abismos, duvido. 
E calo. 

Feitas as contas, 
– sob o lombo do meu cavalo – 
carrego apenas: 
sono, dores, dilemas.


6 de janeiro de 2013

A vida dentro dos livros



















         Estamos bem, mãe. Paris é linda! A. está radiante. E eu estou muito contente, em saber que a estou fazendo feliz. Encontraremos com P. na semana que vem. Ele nos levará até a Suíça. Vamos revelar todas as fotos e enviaremos para a senhora. Prometo. Dê lembranças ao vovô e a L. Em breve estaremos de volta. Um beijo carinhoso deste que te ama, V. Lágrimas nos olhos, coração cheio de saudades de um filho que já não existe, ela coloca o cartão postal − enviado em 1982 − dentro do velho livro, e o guarda na gaveta da cômoda. Exatamente como faz, há 30 anos, todos os dias, antes de dormir.