14 de dezembro de 2014

(A cama do defunto, de Edvard Munch)

















 

VESTÍGIOS

Não, não somos nada

e nunca seremos.

Não passamos de simples espectros do que foram os outros,
sombras dissipadas na parede.

Ontem, corremos em direção ao mar,
construímos castelos de areia,
conversamos com amigos imaginários.

Hoje, num leito branco e cheirando a éter,
abrigamos mais um tumor ancestral,
e esperamos pelo dia que sempre vem,
única verdade inabalável.

Amanhã, quem sabe,
nos tornemos vestígios,
lembranças escusas na mente de alguém.

9 de abril de 2014












Roberval Pereyr foi um dos ganhadores do 2º Prêmio Brasília de Literatura. O seu livro Mirantes ficou em 1º lugar na modalidade Poesia. Estou feliz demais, pois sou admiradora confessa da poesia de Roberval Pereyr e sinto-me honrada em tê-lo como meu orientador ─ no mestrado da UEFS ─ e meu amigo. Roberval, além de grande escritor, é um professor excelente, um orientador atento e um ser humano raro: simples, honesto, sempre pronto a ajudar e dono de uma simpatia sem igual. Esse prêmio é, portanto, um reconhecimento mais do que merecido. 

Abaixo, compartilho o seu poema "Desmentido", um dos meus preferidos: 

DESMENTIDO

Alguém me reconhece num retrato de menino.
Não sou eu: é minha antiga paz.
A história de um homem é sua pista falsa:
estudam meus sonhos, meus passos, meus mapas
e dizem quem sou inutilmente.
Inutilmente.
Porque sou sempre o que vem pelo atalho.

(Roberval Pereyr)


25 de dezembro de 2013

Os jogadores de cartas, de Cézanne















O JOGADOR

Apostou alto. Imaginou que ganharia de novo. Era bom nisso. Há anos frequentava o cassino. Perdia algumas vezes, mas, ao final, sempre saía satisfeito. Quase não parava em casa, pouco via a mulher e a filha recém-nascida, o que importava mesmo era dar o conforto que elas mereciam. Como suspeitara, ganhou mais uma vez. E, apesar de grande jogador, nunca havia faturado tanto. Definitivamente, o seu dia de sorte. Nem acreditava na quantia que iria entregar à família. Rindo alto, levantou-se, apanhou o chapéu e preparava-se para sair quando um colega segurou o seu braço e lhe falou, desconcertado, sobre o acidente de trem. Ainda absorto, ele pôs a mão no bolso, depositou todo o dinheiro sobre a mesa e, em silêncio, atravessou a porta.

16 de outubro de 2013















NUNCA MAIS 

Olhos fixos no teto. Não queria tomar banho algum. Que o deixassem em paz. Era pedir muito? A sua mulher, desde que ele ficara doente, não era mais a mesma, havia perdido a alegria de outrora. Antes, sempre tão viva e atraente, andava agora triste, cansada, sem esperanças. Em alguns meses, envelhecera anos. Tinha se acostumado com a nova rotina, não reclamava, o que a feria era não ser reconhecida pelo marido. Sabia que não era culpa dele, ninguém escolhia ter Alzheimer. No entanto, doía o fato de ter sido esquecida pela pessoa que mais amava, mesmo involuntariamente. Mas essa era uma realidade que ela precisava enfrentar: o marido não voltaria a ser como antes. Nunca mais. O único momento em que ele se lembrava dela era ao contemplar as suas fotos de quando jovem. Olha que moça linda, cabelos loiros, sorriso encantador. A minha mulher. Eu era apaixonado por ela. Onde ela está? Você a viu? Sou eu, esta sou eu, depois que nos casamos. Não, não é você. Onde já se viu uma doidice dessas? Veja, que belos olhos azuis. Para onde será que ela foi? Dias depois, ao levar comida para o marido, percebeu que ele a observava de modo estranho, com a boca aberta, um ar de criança que está vendo o mar pela primeira vez. Depositou o prato em seu colo e subiu as escadas. Ao retornar, ele perguntou: você viu a moça bonita, loira, de olhos azuis? Tão linda, sorriso encantador... ela esteve aqui, veio me ver. Deixou este prato de comida, subiu as escadas e desapareceu. Estou até agora esperando, olhando lá pra cima, mas ela não voltou, nunca mais voltou.


22 de setembro de 2013





       










MORANGOS SILVESTRES

O filme sueco Morangos Silvestres, com roteiro e direção de Ingmar Bergman, exibido em 1957, foi considerado pela New York Times um dos 1000 melhores filmes já produzidos e, a meu ver, não existe nenhum exagero nisso. Nos minutos iniciais da película, na passagem do primeiro e estranho sonho do professor de medicina Isak Borg, observei estar diante de um filme com toques surrealistas, no estilo de Luis Buñuel. Mas admito que Ingmar Bergman me encantou muito mais do que conseguiu o cineasta espanhol. Deixando de lado comparações inúteis e voltando a Bergman, ele promove, com Morangos Silvestres, um tipo de road-movie, no qual o personagem Isak Borg faz toda uma revisão existencial. Acometido por sonhos que pareciam querer lhe avisar da proximidade da morte, Isak percebe bem mais do que isso, percebe que sempre caminhou como um morto: frio, insensível, egoísta, afastado de qualquer desejo, de qualquer ato que o tornasse vivo. Velho e solitário descobre, ao fazer uma viagem a Lund, a fim de receber um prêmio honorífico, que ainda havia tempo de se tornar outro frente ao seu filho (que lhe recorda a sua juventude amargurada), à sua nora Marianne, à sua fiel criada e à sua caústica mãe (retrato do que ele, provavelmente, se tornaria). É na estrada que Isak reconhece a leveza e o frescor de três jovens, cheios de planos, que pegam carona e seguem com ele; é na estrada que ele se lembra do seu casamento frustrado, ao acolher um infeliz casal que sofre um acidente de carro; é na estrada que ele compartilha da angústia de Marianne, que está grávida e magoada com o marido, que, cético como o pai, acredita que a vida é mera perda de tempo e, por isso, não vale a pena colocar mais um ser no mundo. O senhor Borg também visita a casa da sua infância e evoca a lembrança do seu amor pela prima Sara, que acaba se casando com seu irmão, bem mais atrevido e intenso do que ele jamais foi capaz de ser. E ao fazer toda essa trajetória, explorando os planos da realidade, do sonho e da memória, Bergman nos faz refletir sobre o sentido da existência e do tempo que passa sem retorno. O filme foi escrito quando Bergman estava internado em um hospital e assistiu à palestra de um médico que falava sobre doenças psicossomáticas. Mais tarde, ele confessa: “Eu criara um personagem que se assemelhava a meu pai, mas que, no fundo, era eu, completamente. Com 37 anos, privado de relações humanas, introvertido e fracassado”. No entanto, com Morangos Silvestres, Bergman nos mostra, também, que até à nossa última viagem, ainda temos meios de consertar as coisas, de levantar do túmulo em que dormimos toda noite e tentar uma nova comunhão conosco, com a vida e com as pessoas que amamos. Morangos Silvestres é, sem dúvida, mais um dos filmes eternos que tive a sorte de assistir.