Roberval Pereyr foi um dos ganhadores do 2º Prêmio Brasília de Literatura. O seu livro Mirantes ficou em 1º lugar na modalidade Poesia. Estou feliz demais, pois sou admiradora confessa da poesia de Roberval Pereyr e sinto-me honrada em tê-lo como meu orientador ─ no mestrado da UEFS ─ e meu amigo. Roberval, além de grande escritor, é um professor excelente, um orientador atento e um ser humano raro: simples, honesto, sempre pronto a ajudar e dono de uma simpatia sem igual. Esse prêmio é, portanto, um reconhecimento mais do que merecido. 

Abaixo, compartilho o seu poema "Desmentido", um dos meus preferidos: 

DESMENTIDO

Alguém me reconhece num retrato de menino.
Não sou eu: é minha antiga paz.
A história de um homem é sua pista falsa:
estudam meus sonhos, meus passos, meus mapas
e dizem quem sou inutilmente.
Inutilmente.
Porque sou sempre o que vem pelo atalho.

(Roberval Pereyr)


Os jogadores de cartas, de Cézanne















O JOGADOR

Apostou alto. Imaginou que ganharia de novo. Era bom nisso. Há anos frequentava o cassino. Perdia algumas vezes, mas, ao final, sempre saía satisfeito. Quase não parava em casa, pouco via a mulher e a filha recém-nascida, o que importava mesmo era dar o conforto que elas mereciam. Como suspeitara, ganhou mais uma vez. E, apesar de grande jogador, nunca havia faturado tanto. Definitivamente, o seu dia de sorte. Nem acreditava na quantia que iria entregar à família. Rindo alto, levantou-se, apanhou o chapéu e preparava-se para sair quando um colega segurou o seu braço e lhe falou, desconcertado, sobre o acidente de trem. Ainda absorto, ele pôs a mão no bolso, depositou todo o dinheiro sobre a mesa e, em silêncio, atravessou a porta.















NUNCA MAIS 

Olhos fixos no teto. Não queria tomar banho algum. Que o deixassem em paz. Era pedir muito? A sua mulher, desde que ele ficara doente, não era mais a mesma, havia perdido a alegria de outrora. Antes, sempre tão viva e atraente, andava agora triste, cansada, sem esperanças. Em alguns meses, envelhecera anos. Tinha se acostumado com a nova rotina, não reclamava, o que a feria era não ser reconhecida pelo marido. Sabia que não era culpa dele, para quem ela não passava de uma criada. Ninguém escolhia ter Alzheimer. No entanto, doía o fato de ter sido esquecida pela pessoa que mais amava, mesmo involuntariamente. Mas essa era uma realidade que ela precisava enfrentar: o marido não voltaria a ser como antes. Nunca mais. O único momento em que ele se lembrava dela era ao contemplar as suas fotos de quando jovem. Olha que moça linda, cabelos loiros, sorriso encantador. A minha mulher. Eu era apaixonado por ela. Onde ela está? Você a viu? Sou eu, esta sou eu, depois que nos casamos. Não, não é você. Onde já se viu uma doidice dessas? Veja, que belos olhos azuis. Para onde será que ela foi? Dias depois, ao levar comida para o marido, percebeu que ele a observava de modo estranho, com a boca aberta, um ar de criança que está vendo o mar pela primeira vez. Depositou o prato em seu colo e subiu as escadas. Ao retornar, ele perguntou: você viu a moça bonita, loira, de olhos azuis? Tão linda, sorriso encantador... Ela esteve aqui, veio me ver. Deixou este prato de comida, subiu as escadas e desapareceu. Estou até agora esperando, mas ela não voltou, nunca mais voltou.






       










MORANGOS SILVESTRES

O filme sueco Morangos Silvestres, com roteiro e direção de Ingmar Bergman, exibido em 1957, foi considerado pela New York Times um dos 1000 melhores filmes já produzidos e, a meu ver, não existe nenhum exagero nisso. Nos minutos iniciais da película, na passagem do primeiro e estranho sonho do professor de medicina Isak Borg, observei estar diante de um filme com toques surrealistas, no estilo de Luis Buñuel. Mas admito que Ingmar Bergman me encantou muito mais do que conseguiu o cineasta espanhol. Deixando de lado comparações inúteis e voltando a Bergman, ele promove, com Morangos Silvestres, um tipo de road-movie, no qual o personagem Isak Borg faz toda uma revisão existencial. Acometido por sonhos que pareciam querer lhe avisar da proximidade da morte, Isak percebe bem mais do que isso, percebe que sempre caminhou como um morto: frio, insensível, egoísta, afastado de qualquer desejo, de qualquer ato que o tornasse vivo. Velho e solitário descobre, ao fazer uma viagem a Lund, a fim de receber um prêmio honorífico, que ainda havia tempo de se tornar outro frente ao seu filho (que lhe recorda a sua juventude amargurada), à sua nora Marianne, à sua fiel criada e à sua caústica mãe (retrato do que ele, provavelmente, se tornaria). É na estrada que Isak reconhece a leveza e o frescor de três jovens, cheios de planos, que pegam carona e seguem com ele; é na estrada que ele se lembra do seu casamento frustrado, ao acolher um infeliz casal que sofre um acidente de carro; é na estrada que ele compartilha da angústia de Marianne, que está grávida e magoada com o marido, que, cético como o pai, acredita que a vida é mera perda de tempo e, por isso, não vale a pena colocar mais um ser no mundo. O senhor Borg também visita a casa da sua infância e evoca a lembrança do seu amor pela prima Sara, que acaba se casando com seu irmão, bem mais atrevido e intenso do que ele jamais foi capaz de ser. E ao fazer toda essa trajetória, explorando os planos da realidade, do sonho e da memória, Bergman nos faz refletir sobre o sentido da existência e do tempo que passa sem retorno. O filme foi escrito quando Bergman estava internado em um hospital e assistiu à palestra de um médico que falava sobre doenças psicossomáticas. Mais tarde, ele confessa: “Eu criara um personagem que se assemelhava a meu pai, mas que, no fundo, era eu, completamente. Com 37 anos, privado de relações humanas, introvertido e fracassado”. No entanto, com Morangos Silvestres, Bergman nos mostra, também, que até à nossa última viagem, ainda temos meios de consertar as coisas, de levantar do túmulo em que dormimos toda noite e tentar uma nova comunhão conosco, com a vida e com as pessoas que amamos. Morangos Silvestres é, sem dúvida, mais um dos filmes eternos que tive a sorte de assistir.

Beijo na cama, de Tolouse Lautrec















ARTE DE AMAR


Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(Manuel Bandeira)













FARDO

Ali estava ele, sentindo o peso de mais um corpo. Dessa vez, de uma jovem e bela mulher, que não tivera prazer algum em matar. Na verdade, nunca matara por prazer, o fazia por dinheiro, no entanto, aquele havia sido o serviço mais difícil de executar. Agora, arrastava o saco preto até o buraco que acabara de abrir, no terreno baldio, onde enterraria também o seu passado. Tinha decidido mudar de profissão. Estava cansado. Na manhã seguinte procuraria outro emprego. Ele se dera conta de que já era peso suficiente viver. E arrastar o próprio corpo.



DIALÉTICA

[...]

É claro que te amo
e tenho tudo para ser feliz.

Mas acontece que sou triste...

(Vinícius de Moraes)












O LÍDER

Resolveu entrar numa empresa de marketing multinível. Começou a ganhar muito dinheiro. Desmarcou todas as partidas de futebol agendadas com os amigos. Pediu demissão do emprego e passava horas e horas convencendo as pessoas a entrarem na sua equipe. Terminou o noivado e colocou o pai num asilo. Deixou de ir ao curso de teatro que tanto gostava e doou todos os seus livros para uma biblioteca. Nunca mais tivera tempo de assistir a um filme, mas a sua rede apenas crescia e ele já podia se considerar um homem afortunado. Aos 72 anos, numa manhã, após sentar-se para gerenciar as empresas MMN, das quais era o líder, teve um ataque cardíaco ali mesmo e, uma semana depois, surpreendentemente, nenhum dos seus mais de dez mil afiliados notaram a sua falta.

A SEPARAÇÃO

É muito bom saber que "A separação", dirigido por Asghar Farhadi, ganhou uma estatueta do Oscar, em 2012. Sinal de que ainda se valoriza um filme realista, profundo e inquietante. O cinema, felizmente, não está resumido a efeitos especiais. "A separação" nos conta a história de Nader e Simin, que enfrentam um processo de divórcio. Simin quer sair do Irã com o marido e a filha, porém Nader recusa, pois precisa ficar com o pai, idoso e doente, que sofre de Alzhaimer e inspira cuidados. Simin, então, pede a guarda da filha, o que não é atendido. Simin acaba indo morar com a mãe, fazendo Nader ter que contratar uma diarista para cuidar da casa e do pai, enquanto ele se encontra ausente. Até aí estamos a favor de Nader, homem compreensivo, calmo, bom pai e bom filho. 


Mas a história está apenas começando. Razieh, a mulher que foi empregada por Nader, está grávida. Num momento infeliz, ela vai ao médico com a filha, que sempre a acompanha, e, com medo do velho sair e se machucar, o deixa amarrado na cama. Quando Nader chega em casa, o pai está caído e sem oxigênio. Ao voltar, Razieh é empurrada pela porta por Nader, que está furioso. Ela acaba tropeçando na escada e é hospitalizada, quando descobre que perdeu o bebê. Nader é acusado de assassinato. Adentramos agora na atmosfera kafkiana dos processos judiciais no Irã. E ao mesmo tempo que torcemos por Nader, ficamos, aos poucos, conhecendo os seus erros e simpatizando menos com ele. Da mesma forma que também gostamos e odiamos Razieh e o marido. 


Com o decorrer do filme, percebemos que não se sabe quem, de fato, é o culpado. E nem se há culpados. Farhadi cria uma história sem maniqueísmos. Estão todos envolvidos no mesmo drama familiar, religioso, político, moral. Nem nós, espectadores, nem os próprios personagens, tem certeza do que está acontecendo, mas ninguém quer ceder: o marido da empregada, Hodjat, porque precisa levar a denúncia adiante, a fim de receber a indenização, com a qual pagará credores; Razieh, tem dúvidas quanto ao motivo da morte do bebê e não quer mentir, para não ser castigada por Alá, mas não pode dizer o contrário, por medo de o marido, desempregado, ter outra crise depressiva; levado pela vaidade e pelo orgulho, Nader também reluta em tentar um acordo pacífico, porque acha que, assim, estará aceitando a sua condição de criminoso. O mesmo se dá em relação ao processo de separação, nem Nader, nem Simin tem coragem de pedir ao outro para voltar. Em meio a todo esse agônico conflito, está a inteligente e sensível Termeh, filha de Nader e Simin, e a pequena Somayeah, filha de Razieh e Hodjat, duas crianças que sofrem e precisam amadurecer antes do tempo.


O filme termina com a câmera "na mão" − guiando o nosso olhar − enquadrando Nader e Simin, que continua em litígio, distantes e a espera da filha Termeh, que terá que decidir, entre lágrimas, com qual dos dois irá morar. Mas essa resolução o diretor Farhadi não nos deixa saber. Essa análise é nossa. Ele só conta a história, que o espectador faça o julgamento que quiser. Não há aquele típico desfecho hollywoodiano, mas quem precisa dele? A vida é dolorosa, conflituosa, cheia de dúvidas e meias-verdades. E nem sempre nos oferece respostas. 



Podemos perceber também que o filme representa uma metáfora do contexto político e cultural iraniano. Logo na primeira cena, durante a discussão do casal, Simin deixa escapar: "Não posso mais ficar aqui nessa situação". E o juiz questiona: "Que situação?". Simin, intimidada, se cala.  Se os iranianos não podem falar da situação do seu país com palavras, se não podem responder a essa pergunta claramente, ao contrário de permanecerem em silêncio, respondem com a arte cinematográfica. Assim fez Farhadi. Porém, com grandes atuações e uma bela trilha sonora, este forte filme iraniano está longe de tratar apenas de problemas locais. O Irã representa ali uma metonímia, um micromundo. "A separação" é, sobretudo, uma obra universal, intensa e profundamente humana.

Deixo, abaixo, um poema do escritor Mayrant Gallo, bem apropriado para o que sinto, agora, ao saber da morte do poeta Alexandre Coutinho:


O EIXO E O SILÊNCIO

Hoje é o dia seguinte à verdade.
E a verdade é a morte.

O sol está lá fora
As nuvens prosseguem
Pessoas prosseguem
Passarinhos voam dos fios para os ninhos
E destes para o espaço infinito.

Nada de novo ou ímpio.
Momentos apenas, sorrisos, fotos, milagres,
O homem do jornal, o garoto que guarda os carros,
Outro que vende água mineral numa caixa de isopor.
Um cão que late num ponto incógnito da tarde.

Sonhos que passam.
Mitos que morrem. Como tudo.

O planeta agora, se saísse do eixo...
Não. Esqueçam.
Uma morte apenas é o suficiente.
É mesmo demais.

Desfrutemos o silêncio que ela deixa
E apenas pensemos em quem se foi.

(Mayrant Gallo)

DEXTER

Nunca fui muito ligada em séries, mas essa me conquistou, desde a abertura. Bons atores, narrativa instigante, ótimos diálogos e reflexões. Recomendo.




GRAVIDEZ

Quase não me conheço:
cadê aquela moça
cansada do vaivém
dos dias?

Cheia de sonhos, de alegrias,
não me pareço comigo.
Será que amanheci grávida,
sem ter concebido?

















CAPTURA

31 de dezembro de 2546. Nox passaria mais um dia capturando e levando à quarentena humanos e clones suspeitos de contaminação por um vírus recém-detectado. Segundo as ordens da empresa de prevenção e controle de pandemias na qual Nox trabalhava, nenhum deles deveria participar das comemorações nas Mega-arenas. Seria mais um dia de visões e ruídos desagradáveis. Nox sabia, entretanto, que o desagradável seria mais corrosivo daquela vez, pois ninguém queria perder as festas e shows da virada. Haveria mais correria, mais desespero e berros. Ylla não era diferente dos outros humanos, porém seus dezenove anos davam-lhe um ímpeto gigante e, talvez por isso, ou por causa de algum sintoma inicial ― era difícil distinguir ―, sentia uma vontade febril de se virar pelo avesso e, mais do que os outros, faria de tudo para não perder a grande festa. [...] 

Para ler mais, clique aqui.

por A. Café-Gallo


Publico, acima, um dos contos que mais gosto, da minha amiga A. Café-Gallo. Faço isto em homenagem a ela, pessoa querida, no dia do seu aniversário. 

PARABÉNS, Déia, pelo talento e pelo dia dia hoje: saúde, paz, vida, arte.

O PLANO ESTADUAL DO LIVRO E DA LEITURA PARA BOI DORMIR

     Você sabia que a Secult-BA e a Sec-BA estão elaborando um Plano Estadual do Livro e da Leitura? Os responsáveis pela empreitada, e que encabeçam a Comissão Executiva e a Presidência, são as duas sumidades que se seguem, ambas funcionárias da Secult-BA e mulheres de confiança do Sr. Albino Rubim.

     A diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, Rosane Rubim, que jamais leu um livro sequer, é amiga de infância de qualquer pessoa famosa, com algum poder em mãos, e, como se isso fosse pouco, é irmã do Secretário de Cultura, Albino Rubim, que a protege em todos os recreios, embora em público só a trate por Rosane, com receio de pronunciar o próprio nome e ser tomado também por uma alimária.

     Laura Bezerra, que passa as reuniões a declinar um mantra, sempre que é convocada a opinar: "Acho que devemos ter muito cuidado com certas afirmações". Desconfia-se de que ela seja um robô e esteja com algum curto circuito irreparável. É a Bahia na vanguarda da tecnologia!

     Esta ilustre dupla tem o aval do secretário, que, além de fazer da Secult-BA um laboratório de suas teorias de sala de aula e empossar, sob o incentivo de altos salários, seus ex-alunos e compadrio do meio acadêmico, tem a pretensão de, sem ouvir nem consultar os componentes da Rede Produtiva do Livro, criar um Plano Estadual do Livro e da Leitura. Só se for para boi dormir!

     Este secretário está mais interessado em eleitores do que em leitores, e por isso, com sua indiferença e seu desdém para com o livro, a leitura e a literatura na Bahia, promove a falência do setor, empurrando os escritores para os seus editais burocráticos, cujos recursos ou não são liberados ou o são somente para alguns, mais iguais que outros. Como bem disse Tostão, certa vez, se referindo ao técnico Luxemburgo, o Sr. Albino Rubim é do tipo que costuma, no Natal, dar e receber panetones. Deveria abrir uma padaria, mas que, obviamente, não seria nada espiritual.

     E neste começo de ano, pós-morte do prof. Ubiratan Castro de Araújo, o secretário parece, mais do que nunca, desejoso de ajustar para baixo a imagem da Fundação Pedro Calmon, que, com as ações desenvolvidas nos últimos anos, ofuscou a Secult-BA e, claro, a figura do próprio secretário, mosca tonta para a benesse de sua trupe.

     É lamentável que o insigne governador Jacques Wagner, em quem a massa de eleitores da Bahia depositou todas as esperanças de reformulação social, educacional e cultural, ainda se deixe enganar por estes “colaboradores” da cultura baiana. Nós escritores estamos vivos, governador! A Bahia não pode ser só carnaval e aparência. Nosso estado, como os demais do Brasil, produz literatura, ideias e pensamentos profundos, que, no entanto, se não são publicados, morrem por aqui. Ou será que todos pretendemos continuar a alcunha risível de que esta é a Bahia de Jorge Amado, como arrota, sempre que pode, a amiga de todo mundo, a Sra. Rosane Rubim?

Mayrant Gallo, escritor e professor de Teoria da Literatura. Publicou, entre os outros livros, O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003).

Estava em São Paulo e fiquei sabendo, acessando a internet pelo celular, que o meu amigo Mayrant Gallo tinha sido demitido da Diretoria do Livro e da Leitura, da Fundação Pedro Calmon. É notório que Mayrant Gallo realizou um excelente trabalho na FPC e que a decisão do Secretário de Cultura foi motivada apenas por interesses políticos, o que me deixou extremamente indignada, principalmente, com o tal argumento Ru(b)im: "incompatibilidade com a SECULT". Depois de ler tamanho absurdo, quis escrever sobre o assunto, mas me deparei com o excelente texto − que só agora pude publicar no Deslocamentos − do amigo escritor Carlos Barbosa. Escrever mais o quê? Carlos disse tudo: 

O escritor Mayrant Gallo, fotografado por Gal Meirelles
















DEMISSÃO DE MAYRANT 

Leio que a demissão do escritor Mayrant Gallo da Diretoria do Livro e da Leitura, da Fundação Pedro Calmon/FPC, foi motivada por "incompatibilidade com a Secult", órgão a que a FPC está vinculada. 

Esse argumento me horrorizou, e digo o mínimo. 

A atuação de Mayrant Gallo foi extremamente proativa e produtiva. Ter uma atuação proativa e produtiva é, portanto, incompatível com a Secult. 

Editais foram publicados, projetos foram avaliados, livros foram escritos e publicados sob a égide da Diretoria do Livro e da Leitura. Então, isso é incompatível com a Secult, sabemos agora. 

Livros raros e fundamentais, como "O povoamento da cidade do Salvador", de Thales de Azevedo, e "Jana e Joel", de Xavier Marques, foram republicados em edições fac-símiles. Publicar tais livros essenciais para a cultura baiana é incompatível com a Secult, fica claro agora. 

Eventos foram criados para promover o encontro do escritor com o leitor em bibliotecas públicas e, inédito no Brasil, penso eu, para leituras públicas de seus textos pelos próprios autores em espaços públicos. Isso é incompatível com a Secult, registre-se em definitivo. 

E a conclusão a que se chega só pode deixar uma impressão de horror diante do interesse oficial demonstrado pelo livro e pela leitura. 

CARLOS BARBOSA, em Minicontos, escrita e leitura.
















BAR
     
Depois de dormir durante doze horas seguidas, ainda me sentia mal. Não nasci para viver só. Apanhei a minha carteira e saí, decidido a beber até esquecer que existia. Entrei no primeiro bar que encontrei, cheio e barulhento. Fiquei. Pedi a bebida mais forte. E quanto mais engolia aquele líquido amargo, mais pensava na morte. Nunca tive coragem, porém. Covarde e idiota. Sempre acreditando, esperando por algo que jamais viria. Do outro lado da rua, um bar vazio. Sequer um bêbado solitário como eu. O homem magro, que ficava no balcão, ia até a porta a cada minuto, estalava os dedos, olhava para os lados e voltava, resignado. Fiquei com pena. Sim, além de idiota, me comovo fácil. Paguei a conta, atravessei a rua, me sentei numa cadeira velha e ensebada e fiz o meu pedido ao magrelo. A bebida estava péssima. Eu me sentia traído. Tive compaixão daquela espelunca e estava sendo lesado. Deveria ter adivinhado, a julgar pelo abandono do local. Rosnei alguma coisa inaudível, fiz cara de poucos amigos, quis ir embora. Fiquei. Tomei outras doses e, uma hora depois, saí, resolvido a caminhar pelas ruas e becos da cidade que conhecia tão bem. Quando as pernas reclamaram, parei para descansar num banco, de onde podia contemplar a lua. Ao menos, era uma companhia. Contei a ela todas as minhas dores. Ela me ouvia, com a natural indiferença dos astros. Até que percebi um arrastar de passos. Não estava mais sozinho. Dois grandes vultos que pareciam estar armados andavam rapidamente em minha direção. Senti falta da solidão do bar. Pela primeira vez, temi pelo que poderia acontecer. Pensei na minha vida de merda. Fiquei.

















O
PESO DO TEMPO
 

      Talvez seja um pouco tarde para escrever sobre o assunto, mas apenas ontem, ao ler uma matéria sobre a morte de Walmor Chagas, fiquei inquieta. O ator, aos 82 anos, sofria de uma doença ocular que o impedia de ler (uma das coisas que mais gostava), ficando, para isso, dependente da filha. Começou, então, a achar que estava incomodando. "Num dia é o pára-choque, no outro é a rebimboca da parafuseta", brincava Walmor Chagas, com relação aos vários exames que se submetia nos últimos dias. Diabético, foi diagnosticado também com gastrite e esofagite. Ao conversar com o amigo Antônio Cardoso, o ator confessou que “queria morrer antes de usar fraldão”. Camus escreveu que “o suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo”. Sim, e é tão difícil, pelo menos para mim, compreender o que leva uma pessoa a tirar a própria vida, enquanto eu, vivo com medo da morte, por mais que a existência, na maioria das vezes, se mostre absurda e sem sentido. Quem sabe, com a chegada da velhice, eu possa entender um pouco melhor tudo isso. Parece claro que Walmor Chagas cometeu suicídio por imaginar ser um estorvo na vida da filha, da família, dos amigos. O psicanalista Freud, numa entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926, disse algo que me tocou profundamente: “Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que o fardo que carregamos”. Ele devia ter razão. Só nos resta mesmo torcer para que, no fim da nossa trajetória, possamos aguentar firmes o peso do tempo.

Dois ratos, de Vincent Van Gogh
"[...] Passando a outros temas, me permita perguntar: desde muito, noto em você um sentimento de visível insatisfação, de tédio e, ontem, isso parecia mais acentuado. Não tenciono invadir a sua privacidade, interprete apenas como a inquietação de um amigo. Você já leu Steinbeck, ''Ratos e homens''? Um dos personagens será enforcado, acusado de assassinato, Lennie é o nome dele, e quando contempla a multidão, que se agita, tomada de frenesi, ele pergunta: ''O que está roendo esses homens?" Eu pergunto a mesma coisa para você, o que está roendo o seu espírito? Algo se agita em seu interior, algum tipo de insatisfação. O que há com você? Por que parece eternamente em crise? Todos os homens são infelizes, cada um é infeliz a sua maneira, foi com Tolstói que aprendi isso. A infelicidade veio para todos e a angústia também, mas podemos amenizá-la, compreende? Os amigos servem para isso, para dividir o fardo da existência. O que eu posso fazer por você?"

Acabo de receber esse belo e-mail de um grande amigo, pessoa sensível, que conseguiu me enxergar além da superficialidade. Sou mesmo uma pessoa triste, um tanto melancólica, mas não sei precisar por quais motivos. Possuo alguns, que não quero citar aqui, no entanto, às vezes, tenho a impressão de que são apenas pretextos, que eu sempre me senti assim, sozinha, deslocada, desde pequenina. Queria muito ser diferente, mas não consigo. Pensei que, ao menos, fora da literatura, eu disfarçava bem esse meu jeito, parece que não. Confesso, portanto, ao meu amigo: sim, devem existir alguns ratos famintos dentro de mim.














CAVALGADA


Para Roberval Pereyr 

Num mundo de farpas, cavalgo. 
Esquecida entre feras 
e abismos, duvido. 
E calo. 

Feitas as contas, 
– sob o lombo do meu cavalo – 
carrego apenas: 
sono, dores, dilemas.




















            A VIDA DENTRO DOS LIVROS
 

      Estamos bem, mãe. Paris é linda! A. está radiante. E eu estou muito contente, em saber que a estou fazendo feliz. Encontraremos com P. na semana que vem. Ele nos levará até a Suíça. Vamos revelar todas as fotos e enviaremos para a senhora. Prometo. Dê lembranças ao vovô e a L. Em breve estaremos de volta. Um beijo carinhoso deste que te ama, V. Lágrimas nos olhos, coração cheio de saudades de um filho que já não existe, ela coloca o cartão postal − enviado em 1982 − dentro do velho livro, e o guarda na gaveta da cômoda. Exatamente como faz, há 30 anos, todos os dias, antes de dormir.

* Este miniconto foi inspirado no post homônimo, escrito por Mayrant Gallo, no blogue Não Leia!

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(clique na imagem para acessar)
 BOLSA FUNARTE DE CRIAÇÃO LITERÁRIA
 
 










No dia 12 de dezembro, saiu o resultado da Bolsa de Criação Literária da Biblioteca Nacional. Eu fui uma das contempladas (ainda nem acredito), com o projeto do livro Ruínas. Fiquei feliz. Pela bolsa, claro, mas, principalmente, pelo fato de pessoas que não me conheciam terem gostado dos meus textos. Desconfiada como sou com o que escrevo, foi bom saber disso. Agradeço muito à Gal Meirelles - que me ajudou com a escrita do projeto - e ao poeta Roberval Pereyr - que escolheu, comigo, os minicontos a serem enviados. Sou grata ainda a todos os meus amigos, que sempre me incentivam e torcem por mim.