26 de abril de 2015

A insuportável família feliz, de Victor Mascarenhas


Não conhecia o autor Victor Mascarenhas e tive uma grata surpresa ao ler o livro de contos “A insuportável família feliz” (2011). Pequeno, com apenas três narrativas, o livro que faz parte da Coleção Cartas Bahianas, da editora P55, é, na verdade, grandioso.

O primeiro conto, que dá título ao livro, conta a história de Licinho, que dentro de um ônibus, voltando para casa, já sabe que encontrará a família reunida para mais uma festa surpresa do seu aniversário. A cada ano, a mãe convida tios, primos, avós, amigos, conhecidos... e ficam todos lá, a sua espera, sorridentes, sadios, harmoniosos e felizes. Ainda que tenham problemas, usam a máscara da felicidade inabalável, afinal, são exemplos de familiares, sempre unidos, amorosos e corretos em tudo. Licinho, no meio de tanta felicidade, sente-se totalmente deslocado, mas, assim como todos, entende ser necessário encenar a farsa. Sabe que precisa chegar em casa, exibir uma cara de surpresa, ficar feliz, comer o bolo da tia Zulmira, ouvir as histórias de sempre, enfim, seguir todas as regras, mesmo contra a sua vontade, mesmo em meio a uma terrível sensação de tédio. Este conto de Victor Mascarenhas me fez lembrar do livro “Poema em quadrinhos”, de Dino Buzzati, no qual lemos a seguinte passagem:

“No geral, serão mesmo
felizes por serem imortais!
Claro. Felizes. Não devem mais morrer
não devem mais suportar
doenças, ferimentos não existem mais.
Ninguém tem fome, ninguém tem necessidade,
todos iguais, falam igual
comem igual, se divertem igual.
São felizes, bocejam!”

Aos 30 anos, Licinho não estava satisfeito com o rumo de sua vida, não queria ser condenado à mediocridade, como todos os parentes, mas não tinha coragem de mudar o status quo, de quebrar as normas da família. Até que encontra um bêbado desconhecido que o fará refletir um pouco e - o leitor supõe - perceber que há outras possibilidades, outros caminhos, ainda que também não levem a felicidade plena, verdadeira, que talvez não exista, ou seja sempre insuportável.

O segundo conto do livro, intitulado “Superstar”, nos apresenta a Billy Jackson, “um menino pobre, preto e de periferia” que vê Michael Jackson dançar e, fascinado, decide imitar o ídolo. Agnaldo, já adulto, faz shows em bares e outras espeluncas, ganha uma mixaria que mal dá para sobreviver, gasta quase todo o dinheiro com roupas para se parecer com o rei do pop, mas, ainda assim, continua o seu trabalho de cover. Na verdade, mais do que um trabalho, ser Billy Jackson era a forma encontrada por Agnaldo para ser alguém, ser visto, admirado - pelo menos enquanto dançava - mesmo que para isso tivesse de se fantasiar, usar uma voz que não era a sua, ter um cabelo que não era o seu, e uma pele que desbotava com o suor. Para Agnaldo, era preciso se transformar no astro a fim de continuar vivo. Até que Michael Jackson morre e Agnaldo, sentindo-se ridículo, pensa se vale a pena continuar, pois sabe que algo nele também morreu.

O terceiro conto, “A última canção”, é a história de Artur Augusto, cantor decadente, que não se conforma em não ser mais lembrado, nem tocado nas rádios, e segue viajando para se autopromover. Chega a Feira de Santana, encomenda seus próprios CDs no Feiraguai, pede as próprias músicas nas emissoras, manda recados nos bares como se fosse a direção do estabelecimento, para que possa se apresentar. Assim, fica conhecido na cidade, vende alguns discos, ganha uma boa grana e ainda consegue um show com a sua banda, que não existe. Artur Augusto, então, satisfeito, continua as suas viagens. As mentiras que conta, o teatro que cria para voltar a ser famoso, tudo isso é apenas uma forma de “continuar existindo em algum lugar perdido por esse país”.

Este terceiro conto também me lembrou de uma outra obra, o conto “O espelho”, de Machado de Assis. Arthur Augusto é como o personagem Jacobina, que só se reconhece enquanto alferes. No dia em que tira a farda e se despe, no dia em que não há mais ninguém para chamá-lo de “meu alferes” e para lhe render elogios e venerações, ele não mais se enxerga no espelho. Assim também Arthur Augusto, que para existir, para sentir-se vivo, precisa ser ouvido nas rádios, admirado. Antes de ser o homem, ele é o cantor famoso, sem o qual não se reconhece.  

Nos três contos do livro “A insuportável família feliz”, os personagens vivem em meio a farsas, usam máscaras para continuar vivendo, mesmo que sentindo-se deslocados, medíocres, ridículos, mentindo para eles mesmos e para os outros. 

Victor Mascarenhas, com essas três belas histórias, que ultrapassam o viés ficcional  - porque espantosamente reais -, nos leva a uma outra reflexão sobre aquilo que Machado de Assis transmitia também em suas obras: o quanto priorizamos a “alma externa” (aquilo que as pessoas pensam de nós, o prestígio) em detrimento da nossa “alma interna”, ou seja, da nossa real personalidade.

3 de abril de 2015

Estações














O cheiro e as cores da primavera embalavam aquele mês de setembro. Durante todo o caminho, crianças brincavam no parque, namorados celebravam o encanto do primeiro encontro, flores brotavam no asfalto, velhos alimentavam pombos e esperanças. Ela sentia uma brisa suave. Mas uma lágrima rolou de sua face e molhou os trilhos, ao deixar o filho, combatente de guerra, em outra estação.

31 de dezembro de 2014

A carta


Acorda, trabalha, se exaspera,
executa sua rotina nos mínimos detalhes
numa repetição enfadonha e desesperada
não se permitindo, nunca, uma hora a mais de sono,
um murmúrio, um mísero atraso.

Ama, sofre, sonha, espera,
como se valesse a pena todo e qualquer momento debaixo do sol,
ignorando que a cada passo que dá morre mais um pouco, se mata,
que cada pensamento seu é um adeus,
e que cada verso escrito, uma despedida, 
uma linha, um esboço
de uma carta suicida.

14 de dezembro de 2014

Vestígios

(A cama do defunto, de Edvard Munch)


















Não, não somos nada

e nunca seremos.

Não passamos de simples espectros do que foram os outros,
sombras dissipadas na parede.

Ontem, corremos em direção ao mar,
construímos castelos de areia,
conversamos com amigos imaginários.

Hoje, num leito branco e cheirando a éter,
abrigamos mais um tumor ancestral,
e esperamos pelo dia que sempre vem,
única verdade inabalável.

Amanhã, quem sabe,
nos tornemos vestígios,
lembranças escusas na mente de alguém.

9 de abril de 2014

Vencedor do 2º Prêmio Brasília de Literatura












Roberval Pereyr foi um dos ganhadores do 2º Prêmio Brasília de Literatura. O seu livro Mirantes ficou em 1º lugar na modalidade Poesia. Estou feliz demais, pois sou admiradora confessa da poesia de Roberval Pereyr e sinto-me honrada em tê-lo como meu orientador ─ no mestrado da UEFS ─ e meu amigo. Roberval, além de grande escritor, é um professor excelente, um orientador atento e um ser humano raro: simples, honesto, sempre pronto a ajudar e dono de uma simpatia sem igual. Esse prêmio é, portanto, um reconhecimento mais do que merecido. 

Abaixo, compartilho o seu poema "Desmentido", um dos meus preferidos: 

DESMENTIDO

Alguém me reconhece num retrato de menino.
Não sou eu: é minha antiga paz.
A história de um homem é sua pista falsa:
estudam meus sonhos, meus passos, meus mapas
e dizem quem sou inutilmente.
Inutilmente.
Porque sou sempre o que vem pelo atalho.

(Roberval Pereyr)