26 de julho de 2012

Rotina














       Chegou em casa tarde da noite. Abriu a porta do quarto e um cubículo não muito limpo, não muito claro e nem um pouco convidativo a recebeu. Tirou o vestido sujo e foi até o banheiro. Permitiu que escorresse sobre o seu corpo a água fria e salobra que pingava do chuveiro. Dez minutos se passaram e estava de volta ao seu acolhedor aposento, contemplando-se diante do velho espelho empoeirado. Sentiu-se desejável, assim como a sua avó deve ter se sentido ao completar 92 anos. Lembrou-se, repentinamente, da rotina que a esperava no dia seguinte e esse pensamento a deixou tão entusiasmada quanto uma dor de dente. Engoliu alguns comprimidos de um pequeno frasco que descansava no fundo da gaveta do criado-mudo e deitou naquilo que aceitava chamar de cama. Dormiu. Cinco horas depois e o insistente toque do despertador a acordou. Foi quando se deu conta, quase com horror, de que ainda estava viva.

10 comentários:

  1. Seu miniconto,Lidi, é de um suspense e de um resultado aterradores. Muito, muito bom. Bjos

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    1. Ângela, admiro tanto a sua literatura, que me sinto feliz e orgulhosa com este comentário. Obrigada. Bjs

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  2. Gostei muito, Lidi. Sobretudo do final surpreendente. Bjs

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    1. Que bom que gostou, amiga M. Fico contente. Bjs

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  3. Muy bueno, Lidi. Principalmente essa parte: "esse pensamento a deixou tão entusiasmada quanto uma dor de dente". Humor para quebrar a rotina. Abç

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    1. Eu imaginei que iria gostar dessa parte, amigo Thadeu. Você, que sabe lidar tão bem com o humor e a ironia na literatura. Obrigada pelo comentário. Bjs

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  4. Muito bom, Lidi!!! Eis a solidão humana!!! Bjão

    Sol

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  5. Desespero e desamparo às vezes parecem mais fortes que a morte.
    Belo texto, Lidi.
    Beijoss

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