26 de julho de 2012

Rotina














       Chegou em casa tarde da noite. Abriu a porta do quarto e um cubículo não muito limpo, não muito claro e nem um pouco convidativo a recebeu. Tirou o vestido sujo e foi até o banheiro. Permitiu que escorresse sobre o seu corpo a água fria e salobra que pingava do chuveiro. Dez minutos se passaram e estava de volta ao seu acolhedor aposento, contemplando-se diante do velho espelho empoeirado. Sentiu-se desejável, assim como a sua avó deve ter se sentido ao completar 80 anos. Lembrou-se, repentinamente, da rotina que a esperava no dia seguinte e esse pensamento a deixou tão entusiasmada quanto uma dor de dente. Engoliu alguns comprimidos de um pequeno frasco que descansava no fundo da gaveta do criado-mudo e deitou naquilo que aceitava chamar de cama. Dormiu. Cinco horas depois e o insistente toque do despertador a acordou. Foi quando se deu conta, quase com horror, de que ainda estava viva.

12 de junho de 2012

Ondas















Este mar
que avança, submerge
e leva suas águas
ao sabor do vento,

é feito das lágrimas
de uma mulher só
que lava suas mágoas
de um outro tempo.

2 de junho de 2012

Crimes

Era início de abril, estava numa livraria, em Salvador, com Mayrant e Andréia Gallo, procurando alguns livros policiais, quando me deparei com Crimes, escrito pelo criminalista alemão Ferdinand Von Schirach. Como eu já tinha comprado vários livros, disse a Mayrant que não levaria este, já que não conhecia o autor, não sabia se valeria a pena. Mas Mayrant se interessou pelo livro e me disse que compraria, leria e, caso fosse bom, me emprestaria. Dias depois, Andréia – que é professora da UEFS, onde também trabalho – chegou com o livro, empréstimo do amigo Mayrant. Como todas as indicações do Gallo são certeiras, soube naquele momento que havíamos, de fato, encontrado um bom livro. Crimes já foi publicado em dezenas de países e, só na Alemanha, vendeu mais de 350 mil exemplares. Quanto ao gênero dos onze relatos, discute-se a cada publicação. Nos EUA, o livro foi considerado como ficção; no Brasil, como não ficção. “O que não muda o fato de serem textos magnificamente escritos, com a rara capacidade de borrar qualquer fronteira entre vida e arte, realidade e fabulação”, nos observa Luciana Villas-Boas, que assina a orelha. O próprio autor defende se tratarem de fatos reais, no entanto, no prefácio de Heisenberg, escolhido pelo advogado, está escrito: “A realidade da qual podemos falar nunca é a realidade”. No fundo, se é ficção ou não ficção - ou as duas coisas - não importa tanto. “O grande mérito do livro é mostrar que a sociedade moderna não pode se livrar do crime, porque este a integra e a movimenta. Todos os contos, de certa forma, seguem este princípio”, escreveu Mayrant Gallo. O fato é que o livro merece a leitura. Crimes nos envolve, nos emociona, nos inquieta, nos deixa perguntas sem respostas, nos causa terror e compaixão, nos faz torcer pela liberdade de um homem aparentemente inofensivo que, aos 72 anos, mata a mulher e a corta em pedacinhos, nos obriga a refletir: "Chutando uma castanha que caíra em seu caminho, continuou descendo a avenida lentamente, enquanto pensava no fato de que a vida era realmente estranha." (Verão, p. 102). Sim, a vida é muito estranha. E como é complexo saber o que se passa na mente de quem comete um crime e, principalmente, o quanto é difícil - e tão limitado - qualquer julgamento. 

20 de maio de 2012

Inspiração















Diante de uma folha em branco
- naquela nebulosa tarde -
decidi escrever um poema.

Com a ponta da caneta no papel
inscrevi ali minha vontade,
apenas.

8 de maio de 2012

Laboratório de poéticas

















 
Mais uma vez, sou grata a José Inácio Vieira de Melo, que selecionou 9 poetas para ilustrar a produção contemporânea da poesia na Bahia, em um artigo para a revista "Laboratório de Poéticas", e me colocou ao lado de nomes como Ricardo Thadeu, Sandro Ornellas, Vitor Nascimento Sá, Emmanuel Mirdad, entre outros. 

Conheça a revista clicando aqui. Os meus poemas estão nas páginas 58 e 59.

21 de abril de 2012

A noite















       Tenta dormir. Pela milésima vez, vê o seu rosto. Acorda assustada, suando frio, mas não desperta. Aquela imagem resiste aos olhos abertos. Deus, definitivamente, parou de escutar as suas preces. Oito meses se passaram e ele permanece. Já cortou encontros, telefonemas, palavras escritas e outras dores. Tudo em vão: “o passado não passa”, disse o poeta. A ponte rachou e ela continua no mesmo lugar. Não consegue vislumbrar outro caminho. A noite a invade. Ela se fecha em seu canto e veste os frios lençóis. Tenta dormir.

9 de abril de 2012

Herança
















há uma mangueira em minha vida
não tive barbies, bicicletas
ou festas de aniversário
só uma velha e frondosa mangueira
a mangueira me deu tudo
e eu nunca soube ser muito infeliz

MENEZES, Mônica. In: Estranhamentos. P55 Edições, 2010.

Sim, sei que precisamos separar o eu-poético do poeta. Não faltei a essa aula de Literatura. No entanto, espero que a poetisa Mônica Menezes tenha falado dela quando escreveu os versos acima. Porque ela não merece mesmo "ser muito infeliz". Mônica é uma pessoa linda, uma amiga querida, que merece toda a felicidade do mundo. E não apenas hoje, no dia do seu aniversário, mas sempre. Pois se "felicidade se acha é só em horinhas de descuido", como nos ensinou o velho Guimarães Rosa, torço para que os momentos de felicidade de Mônica sejam constantes. PARABÉNS, amiga. Adoro a tua poesia, adoro você. 

Um pouco mais do talento de Mônica Menezes, clicando aqui.

3 de abril de 2012

Liberdade














Pediu as suas chaves 
de volta, 
implorou para sair
daquela prisão.

Queria voltar a ver a luz,
queria por um fim
em sua aflição.

Mas quando a porta
se abriu,
perdeu as forças
e sentiu o mais completo
abandono.

Agora,
está trancada no quarto
e só deseja a escuridão
e o sono.

18 de março de 2012

Sereia



        Preferia uma praia, mas como morava em uma cidade na qual o mar não fazia parte dos cartões-postais, passou o dia inteiro numa piscina. E esta alternativa não a desagradou. Poder estar dentro d’água, nadando até os braços e as pernas perderem as forças, não desejaria nada melhor para um domingo. Pensa, às vezes, que deveria ter nadadeiras em lugar dos pés. Sai da piscina, volta ao quarto, deita na cama, dorme. O sol entra pela janela. Se pudesse, ficaria ali, por mais algumas horas, ou levantaria apenas para cair, de novo, na piscina. Começa a se imaginar morando em um aquário. No entanto, precisa acordar, trabalhar, viver. O dia nasceu. Ela também. E uma mulher, não um peixe.

26 de fevereiro de 2012

Meia noite em Paris

















        Ontem, assisti a Meia noite em Paris. Continuo me perguntando como Woody Allen consegue escrever e dirigir tantas obras-primas. O filme, que foi indicado ao Oscar 2012, começa ao som da canção “Si tu vois ma mère”, de Sidney Bechet, e troca os créditos iniciais por um delicioso passeio pela Cidade Luz. Nos primeiros minutos, já fui “fisgada”, como aconteceu com a personagem Adriana, ao ouvir as palavras iniciais do livro do nosso protagonista.
A história é de Gil Pender (Owen Wilson), um roteirista frustrado de Hollywood, que resolve escrever um romance. Noivo de uma mulher fútil - que não vê nada de especial em caminhar por Paris, preferindo a companhia de seu “amigo” pedante – Gil é nostálgico, sente-se deslocado na era em que vive e acha que nasceu tarde demais, que estaria melhor na Paris dos anos 20. E é para lá que ele acaba fazendo uma “viagem” fantástica, depois que toca as doze badaladas. 
Ao entrar em um misterioso carro, ele descobre outra cidade, repleta de artistas como Hemingway, Stein, Fitzgerald, Dalí, Buñuel, Eliot, Porter, entre outros, e conhece Adriana (Marion Cotillard) – amante de Picasso – que também não gosta do seu momento e sonha com a Belle Époque francesa. O escritor percebe, então, que nos voltamos ao passado, porque o presente é sempre “um pouco insatisfatório, porque a vida é um pouco insatisfatória”.
Os diálogos são primorosos, a fotografia é linda e confesso que me identifiquei com a angústia de Gil Pender e de Adriana, pois quase sempre me sinto nostálgica, deslocada, pensando que deveria ter nascido em outro tempo. Acho que deveria era viajar. Quem sabe, um dia, eu possa caminhar pelas ruas parisienses. Talvez, eu só precise mesmo de um instante chuvoso em Paris.

17 de fevereiro de 2012

Valsa



Me disseram que eu precisava estancar as feridas.
Me pediram para esquecer o passado e ter esperanças.
Me convidaram a entrar na dança
e ser feliz, nada mais.

Cheia de ataduras, me pus um vestido verde e saí rodopiando,
amando, chorando e olhando pra trás.

9 de fevereiro de 2012

Aeronauta















Para Ângela Vilma

A vida é tão complicada
que nem o amor descomplica.

Mas há uma rota e
é preciso segui-la:
pela terra, pelo mar
ou pelas nuvens,
como uma aeronauta.

A morte não é mais solução,
o sono já não nos conforta:

viver é caminho sem volta.

4 de fevereiro de 2012

Sobre "As baianas" e os baianos

As baianas 
 

Coletânea inspirada em As cariocas, de Sérgio Porto, As baianas, que traz as histórias de seis mulheres oriundas dos bairros de Salvador, será lançada no dia 10 de fevereiro, na livraria Cultura do Salvador Shopping, a partir das 19 horas. A publicação é da editora Casarão do Verbo. O jornalista Xico Sá assina a apresentação e Aramis Ribeiro Costa – presidente da ALB – o posfácio. 
  
Os baianos

Foto: Gal Meirelles

Os escritores da coletânea, de cima para baixo: Gustavo Rios, Lima Trindade e Elieser Cesar (em primeiro plano), Mayrant Gallo, Carlos Barbosa e Tom Correia.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.
 

22 de janeiro de 2012

Roberval Pereyr e o Prêmio Braskem

















SONDAGEM

As soluções? Não há.
Mas a vida prossegue, eterna.
Por isso há plantas e bichos
e o homem no mundo. E a terra.

Ou então não é nada disso
e não faz sentido algum
esta dor de dente. E essa festa.

PEREYR, Roberval. In: Amálgama. Salvador: FUNCEB, 2004.

É, talvez a vida não faça mesmo sentido algum. Nem as dores de dente.  E nem as festas. Mas, hoje, eu proponho uma bonita festa. E esta fará muito sentido, pois será em homenagem ao meu amigo Roberval Pereyr, grande professor, grande ser humano, grande poeta. O seu livro Mirante foi vencedor do Prêmio Braskem, da Academia de Letras da Bahia, edição 2011, dedicada à poesia. PARABÉNS, Roberval Pereyr, por esta premiação, muito mais do que merecida.

18 de janeiro de 2012

Exílio

Manhã, de Edvard Munch


Para Thiago Lins

Mesmo trancada em meu quarto,
não tenho refúgio,
uma terrível lacuna me persegue:
sou eu que sigo
ou o mundo que segue?